O jornalista Antonio Pimenta Neves, de 74 anos, passou em claro a primeira noite na prisão após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que ele terá que cumprir preso a pena de 15 anos pelo assassinato da namorada, a também jornalista Sandra Gomide. Segundo informações, ele não quis comer nada e passou a noite andando de um lado para o outro na cela. Também recusou o café da manhã da delegacia, nesta terça-feira, composto de café com leite, pão e manteiga. Só aceitou o café trazido por sua advogada, Maria José da Costa, composto por pão, queijo, suco e água.
Ele está detido na delegacia do bairro Bom Retiro, no Centro de São Paulo, numa cela isolada de 5 metros quadrados e sem janelas. Ele não falou com ninguém na delegacia. Nesta quarta-feira a Secretaria de Administração Penitenciária deve decidir para qual unidade penitenciária ele será transferido. O crime aconteceu há quase 11 anos, num haras em Ibiúna, cidade a 64 quilômetros de São Paulo. Segundo a acusação, o jornalista matou Sandra com dois tiros.
O delegado José Carlos de Melo disse que o fato de Pimenta Neves estar numa cela sozinho não é um privilégio. A delegacia tem outras celas onde presos ficam sozinhos, disse o delegado. Segundo Melo, Pimenta Neves não reclamou do tamanho da cela.
Pimenta Neves chegou às 23h35m à delegacia. Antes, o jornalista foi submetido a exames de corpo de delito na sede do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Ele se entregou por volta de 20h desta terça, depois que o STF decidiu que ele deve cumprir a pena de 15 anos preso. Com isso, esgotaram-se todas as possibilidades de recursos na Justiça para que ele ficasse em liberdade.
Pimenta Neves deixou sua casa, na Zona Sul de São Paulo, em uma viatura policial por volta de 20h desta terça. O delegado Pablo Baccin negociou a rendição de Pimenta Neves, que não ofereceu resistência. O mandado de prisão foi expedido pela Justiça de Ibiúna, onde o crime aconteceu.
– Eu já esperava por isso. Esgotaram-se os recursos – disse o jornalista numa das poucas declarações depois da decisão do STF.
– Assassino, covarde – gritou a professora universitária Clarice Carmem, enquanto Pimenta Neves era colocado na viatura, estacionada dentro da garagem de sua casa.
O advogado de Pimenta Neves, Itagiba Francês, disse que não houve surpresa alguma.
– Ele já estava esperando. Não tem como fugir. Ele é um homem de 74 anos, está debilitado, é hipertenso. Não é um dia para festa. Hoje é dia de tristeza para as duas famílias – disse o advogado de Pimenta Neves.
– Agora é definitivo. O STF está de parabéns – comemorou o advogado Sergei Cobra Arbex, que representa a família Gomide e está no caso desde a condenação.
– Este é o caso mais emblemático de impunidade que o Brasil já viu. Demorou sete anos desde o assassinato ao julgamento. Estou feliz agora. Como advogado e como cidadão. Não pela prisão, mas pela efetividade da justiça – explicou Arbex.
Os advogados de defesa do jornalista Pimenta Neves entraram com mais de 20 recursos na Justiça para que ele ficasse em liberdade. Na tarde de terça-feira, o STF negou o último recurso que tentava anular a condenação de 2006. Pimenta foi condenado a 19 anos e meio de prisão, mas teve a pena reduzida em duas oportunidades, chegando a 15 anos. Ele ficou sete meses preso, no ano 2000, mas conseguiu um habeas corpus para responder pelo crime em liberdade.
– É chegado o momento de cumprir a pena – salientou o ministro Celso de Mello, do STF.
egundo a ministra Ellen Gracie, do STF, o caso Pimenta Neves é um dos delitos mais difíceis de se explicar no exterior.
– Como justificar que, num delito cometido em 2000, até hoje não cumpre pena o acusado?- disse ele.
A ministra qualificou como um exagero a quantidade de recursos apresentados pela defesa do jornalista, embora todos estejam previstos na legislação brasileira.
Para o ministro Ayres Britto, o número de recursos apresentados pela defesa beira o “absurdo”.
Fonte: O Globo
