Digitalização no comércio popular
A digitalização se tornou uma realidade indiscutível no mundo do comércio, principalmente impulsionada pela pandemia que forçou muitos negócios a se adaptarem rapidamente às novas tecnologias. No bairro do Bom Retiro, em São Paulo, esse fenômeno é especialmente notável. Uma pesquisa da Abiv (Associação Brasileira da Indústria do Vestuário) revela que aproximadamente 70,3% das lojas da região, tradicionalmente voltadas para o varejo físico, já fazem vendas online. Essa transformação não significa apenas uma adaptação às novas ferramentas, mas uma reforma integral na forma como os lojistas se relacionam com seus consumidores.
A digitalização potencializa a visibilidade das lojas, permite acessar um público mais amplo e diversificado, e também oferece novas oportunidades de negócios. O comércio online, que há alguns anos era uma alternativa, agora se tornou uma necessidade, especialmente para a sobrevivência de muitos negócios pequenos e médios. As lojas do Bom Retiro, que antes dependiam quase exclusivamente das vendas presenciais, agora exploram diferentes canais de distribuição e comunicação, aumentando suas chances de sucesso em um mercado cada vez mais competitivo. A experiência de compra se transforma, com o cliente podendo escolher entre visitar a loja ou realizar suas compras de forma prática e rápida pela internet.
Utilização do WhatsApp por lojistas
Um dos instrumentos mais citados no contexto da digitalização no Bom Retiro é o WhatsApp. Surpreendentemente, 90,3% dos lojistas utilizam essa ferramenta como parte integrante de suas operações comerciais. Essa preferência se deve à sua eficácia em facilitar a comunicação direta e imediata com os clientes. Através do WhatsApp, os lojistas conseguem tirar dúvidas, enviar fotos de produtos, gerir pedidos e até realizar vendas.

Esse aplicativo se configura como uma ponte entre o tradicional e o novo, pois permite que as lojas mantenham um atendimento humanizado e próximo ao cliente, mesmo em um ambiente digital. Além disso, muitos lojistas relatam que as vendas realizadas pelo WhatsApp representam uma parte significativa do faturamento, substituindo o atendimento presencial que antes dominava as operações comerciais. A facilidade e a rapidez que a plataforma oferece tornaram-se uma vantagem competitiva significativa, pois permitem que os lojistas atendam rapidamente a solicitação dos clientes.
Impacto de marketplaces no setor
A inclusão em marketplaces também se mostra um passo estratégico para muitos lojistas do Bom Retiro. Aproximadamente 53,7% dos proprietários de lojas estão criando seus próprios ecommerces, enquanto 53% vendem por marketplaces voltados ao atacado. Vender através de grandes plataformas, como Mercado Livre e Amazon, representa um avanço lucrativo, além de uma oportunidade de exposição para marcas locais.
Os marketplaces não apenas ampliam o alcance das lojas, mas também oferecem ao consumidor uma variedade maior de opções, desde roupas e acessórios até itens de decoração. Para os lojistas, isso se traduz em uma maior taxa de conversão de vendas, uma vez que os clientes têm acesso facilitado a distintos produtos em um único local. No entanto, esse crescimento traz desafios, como a necessidade de gestão cuidadosa de estoque e controle de preços, para manter a competitividade dentro desses canais.
Crescimento das vendas online
O aumento das vendas online durante a pandemia tem sido significativo, a ponto de um depoimento de Viviane Colugnati, gerente de uma loja no Bom Retiro, exemplifica bem essa realidade. Antes da pandemia, cerca de 10% do faturamento era proveniente de vendas online; agora, esse número saltou para impressionantes 90%. Essa mudança é reflexo de um novo comportamento do consumidor, que, além da conveniência, passou a valorizar a segurança que o formato online oferece.
Além disso, muitas lojas também optaram por estabelecer parcerias com influenciadores e criar campanhas direcionadas em redes sociais para atrair novos clientes. Este crescimento no espaço digital possibilitou a abertura de novos canais para a divulgação dos produtos, o que é vital para o sucesso sustentável na nova economia digital. Não se trata apenas de vender, mas de criar uma experiência completa para o cliente, que envolve a identificação da marca e a construção de uma relação duradoura.
Desafios de marketing para lojas
Apesar das oportunidades apresentadas pela digitalização, vários lojistas enfrentam desafios quando se trata de marketing. Muitos negócios no Bom Retiro não têm a estrutura necessária para uma gestão de marketing eficiente, especialmente aqueles que seguem métodos mais tradicionais. De acordo com Cinthia Kim, presidente da Abiv, é crucial que lojas que não estão familiarizadas com o marketing digital recebam orientação.
A Abiv está empenhada em ajudar essas lojas, oferecendo quatro vídeos gratuitos de capacitação em marketing digital para os associados. Essa iniciativa busca promover um reposicionamento do Polo da Moda e fortalecer a presença das lojas na internet. O marketing digital não é apenas uma opção extra; agora ele é um componente vital para o sucesso no varejo contemporâneo. Ser capaz de se comunicar efetivamente online e engajar com o cliente é essencial para a sobrevivência no mercado.
Reestruturação da Abiv para o futuro
Em resposta aos novos desafios enfrentados pelos lojistas do Bom Retiro, a Abiv está se reestruturando para promover um futuro mais próspero para a região. O plano inclui o desenvolvimento de um aplicativo voltado para o atacado e a criação de uma plataforma de empregos, direcionada a mitigar a falta de mão de obra qualificada no setor. Atualmente, a região emprega cerca de 19,4 mil trabalhadores, enfrentando dificuldades por conta da desatualização das habilidades requeridas para o cargo.
A reestruturação não se limita apenas a ferramentas e recursos digitais. Trata-se de uma visão ampla para revitalizar e tornar o Polo da Moda uma referência nacional. A Abiv deseja reafirmar a essencialidade do Bom Retiro, que movimenta R$ 5,3 bilhões anualmente, e promove a produção de mais de 50,5 milhões de peças por meio de diversas confecções. É uma jornada que visa não somente a sobrevivência, mas a prosperidade no futuro.
Iniciativas para mão de obra na moda
Um dos aspectos que mais preocupam os lojistas é a escassez de mão de obra. Muitos profissionais do setor são mais experientes e estão se aproximando da aposentadoria, enquanto a nova geração é menos inclinada a se interessar por carreiras em moda e confecção. A Abiv identificou que a maioria das empresas depende de funcionários antigos que possuem experiência, mas enfrenta dificuldade em atrair a nova geração para funções práticas como costura, corte e acabamento.
Para reverter essa situação, a Abiv está promovendo campanhas de conscientização sobre as oportunidades e benefícios de se trabalhar no setor de moda. As iniciativas visam atrair jovens, mostrando que a indústria de moda é vibrante e cheia de possibilidades, que transcende estereótipos associados a trabalhos manuais. Com um enfoque renovado, a Abiv espera resolver a questão da escassez de mão de obra, garantindo um mercado sustentável para o futuro.
Histórias de sucesso no Bom Retiro
Histórias de sucesso são fundamentais para inspirar e motivar outros lojistas. Um exemplo é Nuri Choo, proprietária da marca Lily Daisy, que conta a história de superação e inovação. Após uma mudança significativa em sua vida após a aposentadoria de seu pai, Nuri decidiu reinventar a marca que já existia na família há décadas. A capacidade de adaptação e resiliência se refletem na estratégia de Nuri, que uniu tradição e tecnologia para garantir o sucesso nas vendas.
Essa trajetória demonstra a riqueza das histórias que permeiam o Bom Retiro; um lugar que, além de ser um polo de moda, guarda as memórias e a cultura de um povo. A migração coreana nas décadas de 1960 e 1980 transformou o bairro em um centro de competividade do setor, ao mesmo tempo que trouxe influência das tradições de vestuário do Oriente. Essas histórias são um testemunho da força e dedicação que o comércio local tem para oferecer.
Produção própria e seu significado
A produção própria é um traço distintivo das lojas do Bom Retiro, com cerca de 97% das empresas mantendo sua unidade fabril. Essa característica não só demonstra a autonomia do setor, mas também a profundidade do conhecimento artesanal que se desenvolveu ao longo de décadas. Ter o controle da produção permite que os lojistas adaptem rapidamente os produtos às tendências do mercado, além de garantirem a qualidade de suas peças.
Além de manter a produção no Bom Retiro, as lojas também podem criar um vínculo mais forte com seus clientes, oferecendo peças únicas que refletem a identidade cultural da região. A produção própria se destaca como um fator de diferenciação, valorizando tanto a autenticidade quanto a qualidade, já que a produção local tende a ser mais responsiva às demandas dos consumidores.
A importância do atacado para a região
Embora o varejo esteja em ascensão, o modelo de negócios do atacado ainda é predominantemente importante para as lojas do Bom Retiro, com aproximadamente 93,5% das lojas atendendo lojistas especializados. Essa estrutura de atacado representa 16% das indústrias de vestuário no estado de São Paulo, sendo um pilar fundamental da economia local.
O forte foco no atacado traz benefícios únicos, permitindo que as lojas se beneficiem de um mercado mais estável e previsível. Roupas de atacado geralmente geram vendas em maior volume e garantem uma taxa de giro do estoque mais rápida. O atacado é o segmento que mantém a roda da moda girando no Bom Retiro, promovendo a contínua inovação e evolução do setor. As lojas que atuam nesse modalidade garantem a sobrevivência da indústria, sustentando a economia do bairro e contribuindo para o cenário fashion de São Paulo.

