Histórias de Moradores do Bom Retiro

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar o acervo de vídeos e histórias com depoimentos dos Moradores.


História do Morador do Bom Retiro: Armando Ceribino
Local: Bom Retiro - SP
Ano: 02/08/2015

Tema: Minhas Lembranças

Sinopse
Minhas lembranças, desde a infância no Bom Retiro, a vida com a esposa e os filhos em Campinas e a profissão de contador, por trinta anos na Companhia Mogiana

História
Nasci em São Paulo em 26 de dezembro de 1927, em um casarão localizado no Bairro do Bom Retiro, na Rua dos Italianos. Meus pais Ernesto Ceribino e Albina Bariani Ceribino, já são falecidos. Minha infância foi passada na mesma casa e no mesmo bairro em São Paulo. Estudei no Grupo Escolar Marechal Deodoro, onde fiz o primário (era chamado dessa forma, naquela época) e terminei com 11 anos de idade. Tive dois irmãos que eram companheiros inseparáveis, Domingos, com um ano mais do que eu e Salvador, o menor de todos. Nessa época escolar, em São Paulo, permitiam e davam liberdade para as crianças brincarem nas ruas. Nós jogávamos bola nas ruas colocando tijolos para imitar as traves do gol, apostávamos corridas, brincávamos de pique, pula na mula, relógio e outros brinquedos que não existem atualmente.

Após o término do curso primário passei a cursar no Liceu Coração de Jesus, o ginásio, no período manhã e a tarde, um curso de aprendiz de tipógrafo. Terminado esse curso, consegui um emprego em tipografia, ganhando cinquenta réis por hora. Passei a estudar a noite na Escola Técnica de Contabilidade, onde terminei o curso de Contador. Contraí núpcias com 28 anos de idade com Eugenia Bruno Ceribino e o casamento permaneceu durante 50 anos fizemos Bodas de Ouro. Tivemos dois filhos: Armando e Márcia Cecília. Trabalhei na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro na contabilidade da mesma, durante trinta anos e fui transferido para Campinas.

Depois de algum tempo o Governo do Estado de São Paulo, decidiu incorporar todas as companhias ferroviárias do Estado e foi criada a FEPASA Ferrovia Paulista S.A. Novamente, fui transferido para São Paulo, capital, por ordem da diretoria da FEPASA. Nesta ocasião fiquei viajando diariamente, durante dois anos, e dai resolvi pedir minha aposentadoria após terminar o tempo de contribuição do INSS. Atualmente moro em Campinas com a minha filha Márcia.


História da Moradora: Aracy Luiza Viazzolli dos Santos
Local: São Paulo
Publicado em: 11/09/2003

Homenagem

História:

Dona Aracy, por favor, a senhora diz o seu nome, local e data de nascimento?
Meu nome é Aracy Luiza Viazoli dos Santos. Eu nasci nesta cidade, capital de São Paulo, capital do Bom Retiro, no dia 15 de janeiro de 1921.

E os seus pais?
O meu pai nasceu em Jambeiro, é uma cidade que naquele tempo pertencia ao distrito - ou sei lá qual é a denominação política - de Caçapava, mas que depois se tornou independente e agora é Jambeiro. É uma cidade com prefeito, seus municípios, aquela coisa...

A data?
Em 02 de dezembro 1834. A minha mãe, o nome dela era Carolina Viazoli. Ela nasceu em Milão, em 20 de janeiro de 1899.

Qual é a origem da sua família?
A origem da minha família é mista. São descendentes de portugueses e alguns mineiros no passado, provavelmente os meus bisavós ou tios avós da parte do meu pai. Do meu avô e da minha avó paternos, e da parte de minha mãe, são descendentes puramente italianos.

A senhora sabe de onde eles eram na Itália?
Sim. Eles eram da Lombardia, aquela região chamada Lombardia, aquela região de onde eles nasceram.

Por que eles vieram para o Brasil?
Os meus avós? A princípio, as únicas pessoas da família que vieram para o Brasil foram a minha avó e a minha mãe, porque os meus avós separaram-se em 19... eles chegaram aqui em 1914, alguns meses antes da Guerra, da Primeira Guerra Mundial, mamãe e vovó. E eles se separaram, os meus avós, em 1912 ou 13, mais ou menos. Ela ficou muito entusiasmada com algumas amigas que viajaram para o Hemisfério Sul e que tinham se estabelecido em Buenos Aires, então, inicialmente o destino da minha avó e a minha mãe seria Buenos Aires. Mas durante a viajem elas vieram.

Elas não vieram como imigrantes. Não?
Não. Elas pagaram a sua própria passagem... quer dizer, com o dinheiro da partilha dos bens e etc.. O meu tio, irmão de minha mãe, ficou com o pai em Milão, e a minha mãe e a minha avó vieram para o sul, para Buenos Aires. O destino era Buenos Aires, mas durante a viajem conversaram, conheceram várias pessoas que iriam descer em Santos... e uma pessoa que se tornou bastante amiga, que a gente chamava de vovó Assunta, era amiga da minha avó, que se chamava Maria Assunção, em italiano é Assunta... então vovó Assunta, que tinha parentes aqui em São Paulo, entusiasmou de tal forma e minha avó que a minha avó e a minha mãe desceram no porto de Santos e ficaram no Brasil. (risos) Essa é a história.

E ficando no Brasil o que é que elas fizeram?
Tiveram muita dificuldade de arrumar trabalho. Lá na terra delas a minha mãe era uma mocinha de... quando veio tinha apenas 15 anos. Foi em 1914. Ela nasceu em 1899, era uma mocinha de 14 anos. Lá ela nunca tinha trabalhado. Ajudava a mãe, ajudava a avó, mas era uma pessoa muito ativa. A minha mãe sempre foi uma pessoa muito ativa e de mentalidade muito avançada, uma coisa que eu sempre achei. Eu não tenho o mesmo tipo de visão que a minha mãe tinha. A minha mãe tinha uma visão fora do comum naquela época, eu considero, né? Vieram pra cá e ficaram hospedadas na casa de uma parenta, amiga aliás, dessa vovó Assunta, que se tornou muito amiga de vovó nessa viajem. Como elas não tinham condições de ficar gastando o dinheiro que tinham trazido, então vovó tornou-se doméstica na casa dessa senhora e mamãe ajudava. E aos poucos elas foram se entrosando. Mamãe gostava muito de costura. Fez um curso de costura, depois comprou uma máquina de costura. Naquele tempo era Singer, hoje em dia ainda é, mas naquele tempo era só Singer... e foi costurando um pouquinho em casa, depois foi costurando para fora, depois arrumou um emprego como caixa... Mais tarde, ela já estava com 16, 17 anos, ela arranjou um emprego como caixa numa camisaria de luxo – naquele tempo a rua 25 de Março não era o que é hoje. Infelizmente hoje a 25 de Março está horrível, extremamente deteriorada.

A senhora se lembra de que camisaria era?
Agora a senhora me pegou, não lembro. Não lembro.

Camisaria?
Inclusive era uma camisaria de dois sócios sírios, mas eram sírios de elite, não eram esses sírios que vêm como imigrante, que vêm como mascate e depois viram donos de loja... Depois, não. Esses vieram com bastante dinheiro Bastante dinheiro e formação francesa Inclusive eles falavam francês correntemente. Porque, eu não sei se vocês sabem, mas a Síria foi, durante muitos anos, protetorado da França. Inclusive o exército da Síria tinha capitães, coronéis, instrutores franceses que moraram lá a vida toda. Tem as suas famílias, seus filhos lá. Então, havia muita comunicação, muito intercâmbio, digamos assim. Então as moças sírias de sociedade faziam os seus cursos na França, nos melhores colégios, que eram pessoas, digamos assim, de posse, que tinham condições. Esses donos dessa camisaria tinham uma camisaria de muito luxo. Ainda, há pouco tempo, eu descobri uma caixa de lenços de seda - seda pura -, lenços masculinos para dobrar e colocar no bolso. A senhora precisa ver o tamanho dos lenços e o material Ainda hoje, seda pura Não desmancha, não Eu deveria ter trazido.

De quem que é esta caixa de lenço?
Onde a senhora achou? Era do meu pai. E meu pai também... Bom eu estou falando da minha mãe, né? (risos) Não tem problema. Depois que ela arranjou este emprego, ficou numa situação melhor, mas assim mesmo elas alugaram um quarto numa pensão de uma italiana, também muito amiga da vovó Assunta, onde a vovó Assunta também morava. Era uma família curiosa porque todos gostavam de ópera lá, e a minha mãe também. Todo milanês, todo o pessoal de Milão... já ouviram falar no Escala de Milão, né? Ah, todo milanês que, digamos, se preze, gosta de ópera. A minha mãe era capaz de cantar ópera de ouvido, sem conhecer música, sem saber da letra. Ela tinha uma facilidade muito grande e gostava muito. Nessa casa dessa família, a família toda tinha nomes de ópera. Era Hotelo, era Tosca, era... deixe me ver o que mais... e outros nomes, assim, de figuras de ópera, de italianas... Lógico Verdes Tudo verde Também, era milanês, era Lombardo, também Bem, é isso que eu posso dizer. A minha mãe permaneceu nessa camisaria mais alguns anos. Lá ela se casou com o meu pai, que era gerente da camisaria e formaram família, e dali por diante ela não trabalhou mais, ela se tornou dona de casa. Esse tipo de dona de casa antiga, que faz de tudo: roupa dos filhos, camisa do marido, lava e passa... Ela bordava muito bem. Ela bordava de uma forma espetacular, fazia crochê de uma forma fantástica, a minha avó também. Faziam crochê e tricô assim, olhando, conversando, como quem não quer nada.

Voltando um pouquinho atrás, as famílias faziam o quê? A família dela fazia o quê, na Itália?
A família da minha avó, eles também eram vinhateiros, eles também tinham no interior, moravam em Milão, mas no interior eles tinham um pequeno vinhedo, os dois, tanto o meu avô quanto a minha avó. Eram regiões diferentes, mas do mesmo condado. Eles tinham vinhedos, eram filhos de vinhateiros e ficavam nessas... vendiam muito óleo de oliva. O meu avô materno circulava pela região, comprava os tonéis de vinha, os tonéis de óleo de oliva e vendia numa loja - pequena a loja - num pequeno bairro de Milão. Eu já não lembro mais o nome do bairro, num bairro de Milão que a minha avó materna dirigia. Quer dizer, ela cuidava do negócio na cidade e ele circulava pelas regiões do campo à procura de vinho, de tonéis que ele vendia depois engarrafado ou em tonéis mesmo. Pulando já pra cá, como é que era a sua casa de infância? Ah, está aqui. (risos) Tenho fotografias aí. Que eu lembro... Bom, eu só posso lembrar da Rua José Antônio Coelho, porque da Rua Prates eu tinha... eu não tinha nem bem 4 anos, eu tinha 3 anos e alguns meses. Mamãe já estava grávida de um irmão, que nasceu em 1924... Na infeliz época da Revolução de 24 a gente morava na Rua José Antônio Coelho. Então a minha memória mais clara, mais ativa, é da Rua José Antônio Coelho mesmo.

Por que a senhora disse: "infeliz Revolução de 24"? Quais as lembranças a senhora tem?
Muito tristes. Porque nós morávamos num local que era linha de fogo.

Onde era isso?
Na Rua José Antônio Coelho, na Vila Mariana. Entre o colégio... naquele tempo já era o colégio... Entre o colégio... como era o nome daquele colégio, bolas? Esqueci o nome do colégio.

Na Vila Mariana?
Sim. O colégio ficava na rua Domingos de Morais, próximo do Largo Santa Generosa. Ipiranga Colégio Ipiranga, se não me engano. Havia militares ocupando aquele colégio e militares espalhados pela região onde nós morávamos; e no abrigo do relógio de água da casa onde nós morávamos, digamos, se amoitou um soldado com fuzil, com munições que volta e meia era bombardeado e ele revidava. Em casa, mamãe... meu pai então, ficou desesperado, porque nós tínhamos - já não temos mais - um móvel, um armário, era o armário no quarto da mamãe, que foi varado por uma bala. E naquele dia o tiroteio foi tão violento entre aquele soldado e outros que estavam espalhados, que a gente não saía de casa. Eu lembro, essa lembrança é a mais antiga que eu tenho, de nós dormindo no chão. Papai não queria que ninguém se levantasse, então a gente ficava no chão, deitados num colchão no chão e ainda segurando um colchão em cima apoiados em cadeiras para se proteger de balas perdidas ou coisa parecida. E realmente uma bala quase pegou o meu pai.

Isso era a Revolução de 24?
24. Foi na rua mesmo. Terminando a Revolução de 24.... A Revolução de 24 trouxe muita modificação. Muita gente fugiu do bairro, simplesmente fugiu do bairro. Agora, o bairro naquela época, Dona Marina, as ruas viraram calçadas. Era terra socada, esburacadas, sem calçadas, sem calçamento, sem nada As ruas eram tomadas por mato e o mato às vezes se tornava bastante alto que dava para esconder uma pessoa. E esses soldados se escondiam nesses matos, nesses pastos... eram verdadeiros pastos. Havia uma casa aqui, outra acolá, outra lá adiante... quer dizer, as vizinhanças eram assim, de 100 metrôs, 200 metrôs, porque tinha sido um sítio... eles não chamavam de sítio, chamavam chácara... uma chácara de portugueses que tinha sido retalhada e vendida em lotes. Tanto que o meu pai comprou um lote que tinha duas frentes: a frente de 25 metrôs para a Rua José Antônio Coelho 123, naquele tempo até a Rua Pelotas, cujo número não me ocorre porque era justamente a paralela seguinte, e o terreno tinha 25 de frente, 25 de fundos, quer dizer, 150 metrôs da frente ao fundo.

A senhora pode imaginar Era a extensão de uma quadra que tomava toda a frente da José Antônio Coelho e a frente da Pelotas. Então, nesse terreno deve ter se abrigado pelo menos um que ficava lá perto de casa e outros que ficavam lá nos fundos. E papai tinha uma bela horta, um belo pomar e tudo, mas... A senhora se lembra bem. A senhora era pequenininha, né? Não, eu tinha nessa época já quase 5 anos. Mas eu lembro de falarem e lembro porque depois aquilo continuava lá, porque eu fiquei ali até 1900 e ... até eu vir aqui pra Liberdade, em 1959. Fiquei muitos anos lá.

Sabe o que nós pulamos?
Eu acho que eu pulei também. É contar como foi que a sua mãe conheceu o seu pai. Ah, sim Eu acho que eu citei qualquer coisa. Que a sua mãe trabalhava na camisaria... Na caixa da camisaria. Como é que era o nome daquela camisaria, meu Deus? Não sou capaz de lembrar...


Camisaria desses sírios, na Rua 25 de Março. E por sinal, naquele tempo, a 25 de Março tinha lojas muito finas de tecidos e lojas também de armarinhos. Tecido e tinha essa camisaria que era famosa. E o meu pai era o gerente dessa loja e conheceram-se lá e depois noivaram, casaram e depois ele arranjou... ele se transferiu daquela camisaria para o Mappin Store, quer dizer, o velho Mappin dos ingleses. Não esse Mappin que a gente conheceu agora, não. Era aquele prédio antigo, que provavelmente a senhora... não sei se é da sua época, talvez não seja. Que ficava no lugar onde hoje é o Unibanco. Hoje é aquele monstro do Unibanco, da Praça do Patriarca.

Lá ficava o Mappin Store, que era a loja mais famosa de São Paulo, de grife, importava tudo da Europa, tudo importado Porque naquele tempo nós não tínhamos nada de indústria, nada de confecção, nada mesmo. O Brasil produzia só o café e outras coisas de gado e etc., mas nada de mão de obra fina, nada de artesanal. Era tudo importado de lá. E o meu pai passou desta camisaria dos... se não me engano a família era Muçalem, um dos sírios era Muçalem, é melhor não citar, eu acredito que ainda existam... e ele passou... arranjou, provavelmente... eu não fiquei sabendo como ele arranjou, mas provavelmente ele foi, candidatou-se, foi aceito, ele tinha muita experiência e ficou também gerente da camisaria do Mappin. Lá, depois de alguns anos, ele resolveu trabalhar por conta própria.

Quando a sua mãe se casou com ele ela parou de trabalhar?
Sim, parou de trabalhar . Naquele tempo não era comum as mulheres associarem o casamento com trabalho, não era comum. Fora a Revolução de 24, que outras lembranças a senhora tem da época da infância? Eu tenho muito boas recordações do meu quintal, do terreno de 150 de profundidade, 25 de frente para a Antônio Coelho, 25 para a Pelotas. Depois foi tudo retalhado, vendido e hoje não se reconhece mais. Não existe mais terreno. São prédios de 12, 13, de não sei quantos andares, apartamentos... Esse terreno está... eu tenho fotografias dele aqui... esse terreno tinha nada mais nada menos do que 5 jabuticabeiras Ah, era um coisa louca A senhora não pode imaginar quanta fruta O meu pai plantava fruta, plantou café, vários pés de café... Porque ele era da região cafeeira, o Vale do Paraíba é região cafeeira e a fazenda onde ele tinha nascido era principalmente café e gado, leite e carne. Mas o meu pai plantou várias frutas que a gente não conhecia ainda em São Paulo, por exemplo, a fruta do conde, que a turma chama de conde, é uma fruta deliciozíssima Então nós tínhamos em casa frutas que não eram comuns aqui na capital, mas sim no interior, longe, lá para o lado da Paraíba. E papai gostava muito disso. De vez em quando ou um irmão dele vinha, ou então ele passava por lá e apanhava as mudas e sementes e plantava. Nós tivemos uma uváia... é uma espécie... é o que eles chamam aqui de apricô brasileira. A uváia é uma fruta deliciosa Também uma fruta desconhecida, nunca mais vi uváia aqui, a não ser no nosso terreno.

Como eram as brincadeiras com o seu irmão, com as crianças?
Com o meu irmão, quando pequeno, era mais cuidar dele, evitar que ele se machucasse, que ele se perdesse no quintal... porque quando a gente entrava no quintal, entrava como se fosse de uma rua para outra, mas depois...

Eu brincava bastante com ele, sim, brincava. Papai, como nessa época já trabalhava no Mappin Store, então ele comprava muitos brinquedos importados, brinquedos bonitos, fora do comum, brinquedos de madeira. E tinha um alemão que era nosso vizinho na Pelotas, quer dizer, vizinho na maneira de dizer, ele morava em frente ao outro terreno e que fabricava aquelas ventuinhas em madeira, mas de uma forma tão curiosa Ele era alemão da Bavária, então ele construía aquela ventuinha que dá a direção do vento. Cata-vento. Cata-vento, é De formas artísticas Era uma casa suíça do tipo bávaro alemão, do sul da Alemanha, com um jardinzinho na frente pintado com madeira, todo em madeira trabalhada à mão, tudo à mão E eles faziam e papai achava maravilhoso. Então nós tínhamos uns 2 ou 3 no quintal, no terraço.

E virava com o vento, assim?
Sim, sim. Era muito curioso Ele era um artesão, ele gostava de fazer isso e fazia com muito capricho. Então, ele pintava a menina que está na janela, aquela sacada da janela florida, tudo pintado na madeira, muito bonitinho. Moinhos a vento ele fazia também.

Quais brinquedos o seu pai trazia?
Brinquedos que o meu pai trazia... Bom, naquele tempo era muito comum bonecas. E as bonecas não existiam no Brasil. As que existiam no Brasil eram as bruxinhas, as bonecas de pano. As bonecas que o papai trazia eram bonecas que atualmente a gente não daria para nenhuma criança brincar porque eram bonecas muito finas demais, com a cabeça de louça ou de massa... dificilmente massa, era de louça, com os olhos que abrem e fecham, dizem "mamãe", choram, etc.. Então, são bonecas muito complicadas para uma criança brincar, bonecas que muitas vezes a mãe não dá na mão de uma criança porque se quebra a louça da cabeça ou da mão da boneca, vai machucar a criança porque é louça. Eram bonecas lindas Eu gostava muito de brincar com uma bruxinha que a mamãe comprou na feira. (risos)

Essa bruxinha a minha mãe falou que ela tomou chuva, descascou, não era nem bruxinha... Sabe aquelas bonecas de papelão que têm aquela massa, parece um papelão forrando, olhos pintados e o corpo de pano?
Aquela era a minha predileta. As outras eu gostava muito, mas eu gostava delas lá no bercinho delas. (risos)

E vocês brincavam com outras crianças de bairro?
Sim. Quando eu cresci, uma vizinha minha - vizinha assim, 50 metrôs - tinha uma menina e um menino também. Então a gente brincava muito. O menino brincava com o meu irmão, que era mais ou menos da idade do meu irmão Depois nós fomos para a escola... e mamãe, como boa européia, ela não perdoava ninguém da escola. Aos 5 anos e meio, como não houvesse naquela região uma escola brasileira, o grupo escolar mais próximo era o Rodrigues Alves, na Paulista, e o outro era na Rua Júlia, lá na Vila Mariana, lá longe. E mamãe não tinha condições de me levar para a escola e o meu irmão ainda naquele tempo era bebê de colo.

Espera um pouquinho, Rodrigues Alves ficava onde? Na Paulista?
Sim, aquele que ainda existe hoje na Paulista.

O outro colégio qual era?
Era o... como era o nome dele? Era aquele da rua Dona Júlia Ainda tem, ainda existe ele É também nome de um político, aliás, se não me engano, de um presidente... Bom, também não importa. Que ainda existe, ainda existe. Com fundos para a atual Domingos de Moraes, aquele trecho, atual Vergueiro... Ele dá para a Domingos de Moraes agora e tem fundos para a Vergueiro, porque cortaram tudo aquilo, né? Então era muito distante e na esquina da nossa rua com a Domingos de Moraes, a José Antônio Coelho com a Domingos de Moraes, existia uma escola alemã, que era naquela tempo a Escola Alemã da Vila Mariana.

E mamãe disse: "Não, essas crianças não podem ficar sem escola, eu só posso levar até lá.” O meu pai tinha que sair cedo, e naquele tempo ele ainda não era motorizado, depois ele se motorizou, mas aí ele começou a trabalhar como corretor, ele não tinha hora, nem momento, nem dia, nem nada, então era pior ainda não tinha horário para levar os filhos na escola e buscá-los. Mamãe então matriculou a mim primeiro e depois o meu irmão no jardim de infância da escola alemã.

A senhora pode imaginar, né? Porque naquele tempo o bairro também era muito procurado por alemães também. Eu tinha alguns vizinhos de famílias alemãs - inclusive mamãe batizou uma filha de um casal de alemães que era de Santa Catarina, mas como conservavam muito a língua em casa, mamãe também conservou muito a língua em casa.

Ela falava italiano?
Ela falava o italiano perfeito, não era o italiano... conosco, desde quando nós nascemos. Porque quando eu nasci ela ainda falava mal o português e papai caçoava muito dela. Então ela se sentiu um pouco reservada, ela disse: “Eu falo italiano com os meus filhos porque essa é a língua que eles aprendem em casa, então eles não vão esquecer e na escola e na rua com os coleguinhas vocês vão aprender o português. Não é demais uma língua que se aprende em casa.” E foi assim que nós aprendemos o italiano, o meu irmão e eu. (risos) Fugi do assunto alemão, né? Essa escola alemã da Vila Mariana, como a senhora pode imaginar, a freqüência era de filhos de alemães que só falavam alemão naquela época. Isso foi em 1925, eu tinha quase 6 anos. Eu nasci em 21... não, em 1926, perdão. Faltavam alguns meses... eu faço anos em janeiro, acho que foi em meado do ano anterior, em meados do ano de 25 que ela me colocou no jardim de escola alemã. Então a senhora pode imaginar que uma menina... naquele tempo a gente não tinha nem rádio, nem televisão, nem outros meios de comunicação para ouvir outras línguas... o alemão para mim era grego, era grego mesmo (risos) O italiano era língua conhecida, o português também, porque papai falava conosco. Mas criança é criança em qualquer lugar do mundo. A senhora pode pôr uma criança que fale chinês com outra que fale português que elas brincam e brigam também como duas crianças. Elas podem não se entender, mas que elas compreendem, compreendem. Então eu fui me adaptando aos poucos. Mamãe sempre recomendava: “Professora, ela não sabe, a senhora tenha paciência com ela.” E eu era muito tímida naquela época.

A senhora aprendeu alemão, então?
Aprendi. Aprendi alemão sem sotaque.

Até que ano a senhora ficou lá?
Fiquei 9 anos naquela escola.

Até se formar?
Até me formar. Porém, a escola não era reconhecida, portanto o diploma não valeu nada diante da legislação brasileira. Mamãe queria que eu fizesse normal, então o que foi preciso fazer? Foi preciso que eu me candidatasse a um ginásio oficializado. E o que nós fizemos? Eu me candidatei no Caetano de Campos e entrei.

Voltou para trás?
Voltei para trás. Muita coisa que eu já sabia eu fui repetir na Caetano de Campos, mas como a escola era uma escola que era patrocinada ou mantida pelo Consulado Alemão, então a escola não era oficializada, portanto, a língua oficial da escola era o alemão e também o que se ensinava lá era quase tudo relacionado com a Alemanha e a Europa. Alguma coisa com o Brasil, lógico, mas em conhecimentos gerais forçava-se mais o conhecimento da Alemanha. Depois, também, naqueles anos – eu saí da escola alemã em 1935 – a senhora sabe que naquela época foi época em que o nazismo se manifestou, começou a se firmar, foi quando Hitller foi da Áustria para a Alemanha, começou a se firmar, a escola mudou de orientação.

Qual foi a diferença?
A diferença foi grande. A diferença foi tão grande que eu, que não entendia nada de política, embora já tivesse nessa época os meus14 anos... a gente não era politizada aquela época, nós não tínhamos condições, nós tínhamos o quê? Nós tínhamos fone de ouvido, a gente ouvia a rádio por aquele fone... não sei se a senhora chegou a conhecer. Rádio da Lena. Da Lena, isso mesmo. Não havia... depois é que apareceram aqueles rádios, isso em 40 e tantos, o rádio Capelinha, depois.

Mas o que é que a senhora sentiu?
Eu senti a mudança do comportamento, principalmente o comportamento. O comportamento se tornou militar. Se tornou tão militar que o hino nacional alemão, que hoje ainda existe e é mantido, não era cantado, foi substituído por um hino dos nazistas.

A senhora aprendeu?
Eu aprendi, eu era aluna do último ano... penúltimo e último ano. Eu aprendi, né? Mas em casa mamãe não gostou muito da coisa, mas a gente não podia fazer outra coisa, não havia outro colégio por lá. Depois é que apareceu o Colégio Bandeirantes na esquina da Cubatão com a José Antônio Coelho. Tanto é que o meu irmão, quando nós saímos da escola alemã, que eu terminei, ele também saiu e foi para o Bandeirantes, e eu saí e fui para a Caetano de Campos. Bem... eu perdi o fio da meada. Sim, a senhora me perguntou a diferença... A diferença era principalmente essa, a gente percebia que os professores estavam sendo substituídos por professores importados, isto é, que vinham da Alemanha para estritamente lecionar, mas numa linha dura, numa linha militar. Isto eu vim... a senhora sabe que no momento eu era ainda muito criançola, apesar de hoje dizerem: "Ah, uma menina de 14 já é uma mocinha." Isso hoje, mas naquela época não era, não. Naquela época eu era muito criança ainda. Então eu não atinei muito com a coisa, eu fui perceber isso alguns anos depois que eu entrei na Caetano de Campos, que eu comecei a rememorar, comecei a lembrar de como era a coisa. Tanto é que a tal militarização chegou a tal ponto que o diretor da escola se demitiu, que ele não era nazista e acabou sendo professor de inglês do colégio Ipiranga... é Ipiranga mesmo aquele colégio que eu disse para a senhora que ficava na Domingos de Moraes, perto do Largo Ana Rosa... que ficava onde é atualmente... deixa eu me lembrar, porque tudo aquilo foi removido, quebrado, aberto com a 23 de Maio... deixe-me ver... mais ou menos em frente à atual... não, não. Bem antes, deixe-me lembrar se tem alguma referência... não tem. O Ipiranga era um colégio oficial, era um colégio oficializado e era um colégio brasileiro.

A senhora fez amiguinhos na escola alemã ou não?
Fiz, fiz. Convivia com eles ou não? Sim. Mas naquele tempo a convivência era muito reduzida por causa das distâncias, todo mundo morava longe.

Não tinha condução?
Não tinha condução.

E no Caetano de Campos, como é que a senhora se deu?
Me dei muito bem, me dei muito bem.

A senhora cursou até que ano lá?
Eu fiz o ginásio e depois o normal e depois eu fiquei um ano. Eu queria entrar logo para a faculdade, queria fazer logo, eu estava querendo fazer letras anglo-germânicas, mas eu não me preparei adequadamente, portanto eu não consegui me classificar para a Faculdade de Filosofia da Universidade, que funcionava justamente no 3º andar da atual Secretaria da Educação. A Escola Caetano de Campos funcionava no térreo, no subsolo, térreo e 1º e 2º andares da atual Secretaria da Educação, lá na Praça da República, e no 3º funcionava a Filosofia. Eu não consegui neste ano, então neste ano eu me preparei, mas estudava e trabalhava também. Com o quê que a senhora começou a trabalhar... Eu deveria ter...deixa eu ver, bom, eu já entrei na Caetano de Campos com 15 anos, portanto entrei já numa idade que as minhas colegas eram dois, três anos mais novas do que eu, mas eu tinha também algumas colegas da mesma idade e algumas também mais velhas, que até hoje são minhas amigas: uma está em São Carlos, uma mora no Belenzinho... e assim ficaram algumas amigas daquela época do ginásio, que depois continuou no normal. A senhora começou a trabalhar... Ah, sim. Eu procurei trabalho, mas queriam tempo integral. Tempo integral e às vezes era longe. Uma vez eu consegui numa indústria aqui na Moóca, se não me engano, para ser... eu datilografava bem porque a escola alemã preparava principalmente para o comércio, era uma escola comercial, não era uma escola de nível, digamos assim, de preparo para a universidade, era para nível médio. Então eu datilografava bem, sabia taquigrafia, que eu não sei mais – e taquigrafia alemã, ainda por cima E datilografava bem e sabia o alemão. Eu falava bem alemão, inclusive me ofereceram um emprego na Siemens assim que eu terminei a escola, dos 14 para 15 anos.

Naquele tempo era na Rua Florêncio de Abreu. Até foi o diretor da escola que havia indicado. Mas a mamãe não quis: “Não, você não vai trabalhar porque você não vai conseguir estudar.” Porque naquela época não havia cursos noturnos para certos cursos, não tinha preparatório noturno. A Faculdade de Direito, que agora tem curso noturno, a Faculdade de Filosofia, que agora tem curso noturno, não tinha nada disso, era só diurno. Portanto, o indivíduo, das duas uma, ou os pais pagavam, porque muitos cursos eram de tempo integral, ou a pessoa trabalhavam no escritório de um amigo do pai ou de uma loja do pai ou de um amigo do pai. Então funcionava desse jeito. Mas, nessa época, o meu pai já era falecido, meu pai faleceu em 34.

Mas ele morreu moço, então?
Morreu, morreu moço. Morreu de uma forma muito triste, eu não gostaria de falar sobre isso. Não fala então. É uma lembrança que não me traz muita satisfação, embora eu tenha enfrentado a coisa muito bem muitos anos depois. Levei muito tempo para enfrentar.

Eu queria perguntar para a senhora, essa escola alemã que a senhora estudou, ela ainda existe?
Existe. Ela se chama Benjamim Constant. Atualmente ela é reconhecida e ela segue todas as leis do ensino brasileiro. Não, não... atualmente não existe. O alemão é uma língua optativa, existe ainda alemão, existem ainda alemães que levam os filhos na atual Benjamim Constant... Fica na Rua Eça de Queiroz, logo no comecinho. Eu conheço. A senhora conhece? (riso) A gente pulou para trás.

A senhora estava procurando um trabalho para entrar na faculdade?
Sim. E eu poderia ter conseguido esse emprego, mas eu achei, a mamãe achou... não, não... Logo depois que eu saí da escola alemã, mamãe não queria que eu aceitasse e me obrigou a preparar - me obrigou é uma maneira de dizer, fez com que eu me preparasse... que mamãe era dessas pessoas que educação, quer dizer, escola não tem conversa, é escola mesmo, era escolaridade... e agora, depois de fazer o normal... eu esqueci de um período, eu entrei num concurso para professora primária e fui classificada e fui lecionar em Itapira, na zona rural de Itapira, que fica na Mogiana. Eu lecionei em escola de roça mesmo, com 3 anos na mesma sala, mesma classe. Lecionei lá 4 anos e aos poucos eu fui me candidatando. A gente vai somando pontos conforme os anos que fica. Carreira.

É, carreira. E eu fui me candidatando em escola mais próximas da capital, até eu conseguir uma escola em Suzano, numa fazenda próxima da cidade, 12 quilômetrôs da cidade mais ou menos. Porque a outra, a primeira onde eu fui em Itapira, onde eu fiquei quase 5 anos, aquela ficava a quase 30 quilômetrôs da cidade, então não havia possibilidade de morar em cidade e de viajar para casa, era lá mesmo que tinha que ficar. Nessa época eu encontrei um dia uma ex-colega da Caetano de Campos que também tinha entrado no magistério e estava lecionando e, no momento, ela estava comissionada na escola da USP, e ela me contou como era a escola porque eu nunca havia ouvido falar nessa escola. Aquilo me interessou, eu achei muito interessante o ensino, fui visitar a escola, achei interessante. Essa minha colega não chegou a fazer o curso de enfermagem, no segundo ano desistiu, disse que não era para ela, voltou para o magistério primário, eu continuei firme e continuei na enfermagem.

Conseguiu entrar e continuou?
Consegui entrar e continuei. Continuei primeiro enfermagem de saúde pública no... agora pertence à Faculdade de Higiene, no antigo Departamento de Profilaxia da Lepra. Eu era enfermeira de saúde pública junto com mais três enfermeiras que faziam a parte de orientação e vacinação preventiva. Naquele tempo era usada a BCG, uma vacinação preventiva para os filhos de hansenianos. Eu fiquei lá aproximadamente dois anos. Nesses dois anos eu me preparei para a Faculdade de Filosofia, entrei na Faculdade de Filosofia em Letras Germânicas e depois pedi comissionamento, e terminei o curso de Letras de quatro anos comissionada – comissionada sempre como professora primária. Terminado isso a escola se interessou por mim, mandou me convidar para ser assistente de enfermagem na escola, assistente de uma das cadeiras de clínica médica, que na realidade é de enfermagem médica.

Isso na faculdade de enfermagem? Era faculdade ou escola?
É... Não, era escola de enfermagem, mas é curso de faculdade. Escola como existem também outras faculdades com nome de escola: Escola Politécnica é faculdade, né? Escola Paulista de Medicina... É nível superior. Eu fiz o curso lá e depois fiz dois anos de Saúde Pública no Departamento de Profilaxia da Lepra e depois fui convidada para ser assistente de uma professora da Escola de Enfermagem onde eu havia feito o curso, onde eu havia estudado. Aí eu fiquei até o fim da vida produtiva.

Voltando um pouquinho, quando a senhora era mocinha, o que a senhora fazia para se distrair? A senhora ia aos bailes?
Não, difícil. Não sei se por falta de companhia ou por falta de interesse mesmo. Tanto é que eu não sei dançar, é até curioso. (risos) Não sei dançar, não tenho jeito para dançar. Eu tive colegas que me convidavam. Eu ia ao baile, mas dançava tão mal que no fim eu me escondia para não ser convidada a dançar. (risos) Muito pouco... Eu gostava muito de ler. Lia de uma forma exagerada.

Sua forma de lazer foi a leitura?
Eu gostava muito de ir a museus, gostava muito de visitar exposições, gostava muito de teatro, teatro dramático, e também a ópera, música... porque juntamente com o curso de alemão, da escola alemã, a mamãe também me arranjou uma professora de piano. Deu de presente um piano, e lá fui eu. Eu não era lá grande coisa não, estudava porque tinha que estudar. Mamãe ficava desesperada porque eu não era muito assídua, não. Eu gostava de música mas eu não gostava de tocar, porque tocar é uma coisa que exige muito esforço, muita dedicação, muito treino e eu não era lá dessas não. Gostava de ouvir, mas não... (risos).

Em que momento a senhora vem aqui para a Liberdade?
Ah, vim pra cá... certo.

Foi quando... Quando a senhora veio?
Vim para cá em 1958 ou 59. Foi por aí, foi por aí sim.

Por que a senhora mudou para cá?
Mudei para cá pelo seguinte, a casa da mamãe. ela colocou à venda, porque na partilha ficou uma parte para mim, outra para o meu irmão... com a minha mãe, a minha casa era com a mamãe, eu morei sempre com ela.

A senhora se refere à sua casa na Vila Mariana? Na Vila Mariana.
Ela resolveu vender a parte dela na casa e resolveu construir uma outra casa que dava frente para a Rua Pelotas e ela pretendia ficar lá, mas ela não conseguiu, porque daí ela começou a ter problemas sérios de artrose, problemas sérios de amputação, as pernas muito inchadas pela artrose, os joelhos, os cotovelos, os tornozelos... ela não poderia jamais ficar naquela casa, era uma casa assobradada, muito bem construída, construída como ela queria, aquela coisa toda. Então ela decidiu vender. Aí uma companhia construtora, que ainda hoje existe...

Como é o nome dela?
Não lembro do nome dela agora. Naquele tempo era PBK... existe ainda, a construtora. Não lembro o outro nome como é que era, era um nome de polonês, qualquer coisa assim... russo, polonês... Essa companhia estava interessada em construir em local que incluía o nosso terreno, e foi aí que foi feito um... eu fui obrigada a mudar para um lugar onde mamãe pudesse depender do elevador, onde mamãe pudesse depender de outras pessoas, do zelador, a senhora do zelador, uma empregada, ou uma faxineira duas ou três vezes por semana, porque ela ficou muito dependente, ela ficou realmente muito entrevada. Além disso, nessa época apareceu um tumor maligno, ela teve que extrair o útero e isso não foi suficiente e foi tomando conta de outros órgãos e nos últimos anos de vida dela ela sofreu bastante, infelizmente. Isso foi de 76 a 78. Nessa época, a gente já estava na Liberdade e eu já estava aposentada. Eu me aposentei em 76, com 30 anos de magistério. Eu me aposentei mais por minha mãe do que por mim mesma. Por mim eu teria feito mais alguns anos e eu teria trabalhado para mais alguns títulos. Cheguei até o título de doutor porque a minha mãe precisava de mim, precisava mesmo, não podia mesmo, ela não podia ficar sozinha em casa, ela estava dependente, extremamente dependente. Foi aí que nós viemos para a Liberdade definitivamente, foi aí que o meu apartamento que eu havia comprado se tornou pequeno, e naquele tempo, as cadeiras de roda não eram tão funcionais como são hoje, e a cadeira de roda da mamãe não circulava no elevador, não circulava no corredor do apartamento, não passava na porta do banheiro, eu digo: "Não, eu preciso de um lugar onde eu possa ter a liberdade de levar a minha mãe até a janela, até onde ela queira ir.” E nessa época foi época da construção do metrô, a construção do metrô acabou com aquela região, acabou com aquela região onde eu morava, que é quase esquina da Rua Pedroso, do Viaduto Pedroso. Tinha um comércio pequeno, mas tinha... a gente tinha uma farmácia pequena, mas tinha um armazém que supria, tinha uma feira razoavelmente próxima, não muito, mas razoavelmente próxima, a gente tinha uma padaria na esquina que era também uma lanchonete e tinha pão fresco na hora... então isso com a construção do metrô acabou. Acabou porque a clientela mudou-se, os prédios da vizinhança... eu já estou adiantando demais, eu não sei se está perdendo... a clientela foi diminuindo, as lojas foram fechando e as pessoas diminuindo o consumo. O lojista não pode fazer milagres. Houve essa quebra muito grande na construção do metrô, que levou um pouco mais de dois anos. A Rua Vergueiro, ela se tornou um campo de obras. É uma coisa tremenda Em frente de casa a gente tinha um entrada lá para os fundos, aquela profundidade do metrô... Nós estamos na profundidade... Curioso, né? Falamos do metrô e nós estamos nele. (risos)

Era um buracão? Dava para ver?
Não dava, não dava. Ninguém se aproximava. Não, porque era perigoso. Tinham aqueles tapumes muito grandes, tinha uma vigilância feia E tinha que ter mesmo, porque senão a criança chegava lá e despencava. (risos) Bem em frente do nosso apartamento, que ficava bem na mão direita de quem sobe em direção ao bairro, tinha uma entrada. E daquela entrada, às vezes a gente via alguém sair de maca. Houve, houve sim senhora. Não digo muitos, mas houve problemas. Eu acredito que... o metrô é sempre muito discreto - isso eu posso dizer de cátedra - de passar para o público algum problema que possa afugentar, que possa impressionar. Eu não me impressiono com isso, eu já estou acostuma, eu fui enfermeira. Enfermeira de cabeceira, não. Só enfermeira de ensinar na sala de aula, porque a Escola de Enfermagem é uma escola de teórico-prática, como é a Escola de Medicina. Se não tem a prática ao lado do doente não é doutor, se a enfermeira não pratica ao lado do doente não é enfermeira, tem que associar a teoria à prática. Então, para mim aquilo não era impressionante, mas para a mamãe impressionava. Quando eu chegava às vezes à noite em casa - o meu era tempo integral na Escola de Enfermagem -, ela dizia: “Você sabe, hoje saiu uma maca de lá com um rapaz coberto e a gente via, até parecia que tinha alguma coisa de sangue.” (sussurro) Não sei se ela viu, olhou... olhou e se impressionou. Mas a gente tinha também o problema do ruído. Foi um barulho infernal os bate-estacas. As senhoras não podem imaginar o que é uma bate-estaca 24 horas por dia, tendo um intervalo de 20 minutos Das 11: 40 à meia-noite, era "tum tum tum tum." Era impressionante, eles estavam fazendo à toda.


Aquilo afugentou gente do bairro que não foi brincadeira Foi aí que as lojas ficaram sem clientes?
É, as lojas ficaram sem clientes, tiveram que mudar, porque a rua existiam só passarelas de madeira para atravessar, passarelas de madeira que passava de um lado para o outro. A rua era um barro só Quando chovia era um barro só Então era difícil Carros não se aproximavam de lá, não se aproximavam carros de lá. Se uma pessoa precisasse de uma ambulância, os portadores de maca tinham que trazer a maca até o local para botar a pessoa na maca, para chegar a té a esquina na ambulância. Foi um sacrifício tremendo, mas tremendo mesmo. Bem, então o campo de obras era uma coisa louca, esse bate-estaca deixou a minha mãe quase maluca. Então, quando chegou um certo dia, mamãe arrumou a manilha, nesse tempo ela ainda, apesar da artrose e de tudo, ela ainda estava bem, entusiasmada, ela ainda não havia sido operada nem nada. Então ela arrumou a maletinha e foi para a casa do meu irmão na Rua Pelotas. E eu que voltava da escola tinha que agüentar. No final, muita gente colocava aquele... era uma massa, eu não sei do que é feito essas massa, era uma massa para tampar os ouvidos. Eu não conseguia dormir com aquilo que ainda somado ao ruído que na minha cabeça parecia um zumbido... eu não conseguia. Eu comprei, inclusive, aquele tapador de ouvido para ver se eu conseguia dormir. Preferia ouvir o bate-estaca e acabava dormindo de tão cansada. É assim.

Dona Aracy, o que ficava na cabeça do pessoal sobre o que era o metrô dessa época? Qual era a expectativa?
A expectativa era muito grande. A gente entendia que iria ser uma coisa muito boa, mas o sacrifício deixou muita gente desanimada, extremamente desanimada. Houve uma formatura em que eu era paraninfa de uma formatura da Escola de Enfermagem (que inclusive deve estar aí), de um grupo da Escola de Enfermagem, uma classe, em que eu tive... ainda bem que não choveu naquele período, não foi em período de chuva. Essa formatura se não me engano foi em fevereiro, era tempo de seca, então eu não precisei de trocar o sapato na esquina. (risos) Porque como é que eu iria poder... o carro não se aproximava de lá, eu ia até a esquina pisando na terra e pisando naquelas tábuas que colocavam assim de atravessado que também ficavam cheias de terra, de barro quando chovia. Eu ainda fui com um sapato fino - era uma loucura - um sapato que eu comprei... deixa eu ver onde foi que eu comprei aquele sapato... sim, sim, comprei numa sapataria famosa que ficava ali na Conselheiro Crispiniano. Meu Deus, como era o nome? Fazia sapato sobre medida, tinha sapatos de suarê também... Então eu comprei um sapato de cetim Macau. A senhora sabe o que é cetim Macau, né? Aquele cetim que vem lá de Macau, na Índia, ex-colônia portuguesa etc., etc. Eram sapatos finos, sapato aberto aqui, assim, era um sapato de suarê Então eu tinha que levar uma sacolinha para trocar o sapato na esquina, porque na esquina é que eu apanhava o táxi que me levava onde eu tinha que ir. (risos) Foram coisas assim, mas sacrificou muito, muito mesmo.

A sua mãe foi embora?
Mamãe foi para a Vila Mariana até terminar o metrô.

Quantos anos demorou?
Olha Como? Desculpa...

Quantos anos nesse sufoco? Ah, mais de 2 anos Mais de 2 anos? Mais de 2 anos, foi sim. Então, no prédio... Aliás, quando mamãe voltou ela já tinha sido operada, já estava com a artrose muito avançada, já não podia mais se locomover sozinha, precisava de cadeira de rodas e estava muito dependente, e o meu apartamento era um apartamento razoável para mim, mas a metragem dele não era própria para a circulação. A cadeira não era muito moderninha, como as de hoje, que são fáceis que se põe até no carro, que se dobra, prensa... Havia no prédio em frente... do outro lado, havia um prédio enorme, onde eu estou morando até hoje, que não é meu, é alugado. Este prédio estava completamente vazio, só existiam alguns proprietários que ainda mantinham os seus apartamentos, mas fechados. Ninguém alugava. Eu fui uma das primeiras que alugaram depois da inauguração do metrô. A senhora sabe por quê? Porque em frente desse prédio, que vem a ser o 263 da Vergueiro, o metrô instalou uma oficina de serraria de ferro. Ah, era uma beleza Aqueles trilhos que sustentaram todos esses andares onde nós estamos. Graças a Deus né? Eram imensos Tinham serra elétrica, então aquilo era ahhhh ahhhh ahhhh noite e dia, em frete desse prédio. Embaixo desse prédio havia um comércio, era um bom comércio, também. Sumiu Os inquilinos mudaram-se, os proprietários que não puderam alugar, que ninguém alugava mesmo, eles então mantiveram os apartamentos fechados. Então, nesse apartamento que depois eu escolhi para morar, eu fui com fita métrica para medir direitinho a porta da entrada, a porta do elevador, a porta do corredor, a porta..., todas as medidas de porta e de corredores imensas, um elevador excelente, parece até elevador de casa comercial, que entra até um piano sem precisar colocá-lo em posição, um piano inteiro. Então era um prédio construído sem economia, mas muito mal conservado - e com metrô contribuindo para essa má conservação. E o proprietário, digamos assim, em desespero de causa até um certo ponto, havia alugado o apartamento para o filho de um amigo que fazia medicina não sei onde, não creio que seja na universidade não, numa outra escola de medicina provavelmente, e que fez do apartamento uma república, então moraram no apartamento onde eu estou morando agora oito rapazes. A senhora imagine o estado em que aquele apartamento foi entregue Quando eu vi aquilo, apesar de todas as medidas, era perfeito, inclusive ele tem na sala um janelão que atinge... ele tem 2,80 de pé direito, uma beleza Eu gosto de coisa ampla. E tem essa janelão imenso que dá pra descortinar a 23 de Maio e a Vergueiro. E ficava quase em frente a uma fábrica de chocolates, que também foi muito prejudicada – fechou, faliu, mas não foi só por isso, mas também por isso.

Não só pelo metrô?
Não só pelo metrô, mas também contribuiu. Uma pena E agora é um terreno baldio lá. O apartamento tinha aquele janelão que ia até quase o chão, ficava mais ou menos um palmo e meio da altura dessa primeira lajota e do chão. O resto era tudo vidro E mamãe com a cadeira de rodas transitava bem. A gente punha ela lá, ela ficava assistindo o movimento da 23 de Maio, ficava assistindo o movimento da fábrica de chocolates, porque era toda envidraçada, mas era envidraçada de vidro... e via o pessoal trabalhando nas máquinas. É muito curiosos, viu? Ela via os funcionários saírem, entrarem... então era uma distração pra ela. Este apartamento eu acabei alugando, ainda estou alugando, não sei por quando tempo ainda e fiquei com ele combinando com o proprietário que eu precisava de uns meses de carência porque eu iria fazer uma reforma básica. Como eu estava morando num apartamento pequeno e mamãe ainda estava na casa de meu irmão ainda, eu tive tempo de fazer uma reforma; mas a senhora não pode imaginar que estado aqueles oito rapazes deixaram aquele apartamento Quer barbaridade (risos)

Eles estudavam o quê?
O que alugou disse que ele estudava medicina. Os outros eu não sei o que é que estudavam. Quer dizer, aquele que estudava medicina arcava com a responsabilidade da casa e depois sub-locou, e isso era proibido, mas o proprietário se acomodou porque não tinha outro jeito de ter pelo menos o condomínio pago. Quando terminou, como é que foi aquele negócio de "vai terminar a obra, tal dia termina"...

Teve essa expectativa?
Não, não teve não. Não houve. Felizmente eles não fizeram o povo sofrer com muita expectativa, não teve. Mas anunciavam que "já vamos desarmar a bagunça?" Sim, anunciaram sim, mas anunciaram na época certa. Eles anunciaram o tempo suficiente para não haver depois uma decepção.

Como assim?
Por exemplo, eles anunciam alguma coisa e depois era protelada. Não, não foi. Foi anunciado mesmo no início, e iniciou mesmo.

Quer dizer, o término das obras?
Término das obras em termos... término das obras de superfície, que era o mais importante, porque tinha que passar trânsito por isso, porque o trânsito subterrâneo era um e o trânsito, digamos, aéreo, sob o metrô era outro.

Ele normalizou a parte da superfície e continuou lá embaixo?
Sim, sim, sim. Não, não, continuou, não. Foi inaugurado depois.

Tudo? Tudo.

Como é que foi a inauguração?

Olha, eu não assisti, porque nessa época eu estava muito ocupada com a minha tese de doutoramento e eu não tinha tempo pra isso. Eu praticamente morei na Escola. Inclusive eu tive a facilidade de, lá na Escola... a nossa Escola de Enfermagem era uma escola que dava até, deu, até uns 20 e poucos anos atrás, residência para os alunos e algumas professoras que moravam longe, que não tinham família em São Paulo. Inclusive eu me candidatei, porque a mamãe estava com o meu irmão, o apartamento estava fechado... fechado é modo de dizer... estava sendo bastante perturbado por causa do metrô e eu estava terminando a minha tese. Então eu ficava fora, longe, eu não tive a oportunidade de comparecer e nem eu estava interessada e ocupada com outras coisas mais urgentes pra mim.

Sobre o que era a tese da senhora?

A minha tese foi uma tese... eu achei curiosa... foi da participação da enfermeira no conhecimento que o paciente tem ou não tem sobre a própria medicação que ele toma, porque é muito comum no Hospital das Clínicas, em outros hospitais também, o paciente tomar a medicação sem saber pra quê, e nós enfermeiras tínhamos por obrigação explicar a ele, porque quando ele sair do hospital ele vai ter que continuar em casa a tomar a sua medicação, que a maior parte deles são paciente crônicos, não existem pacientes que saem de lá e saem curados. Ele sai de lá em estado melhorado, e justamente as Clínicas, onde eu estagiava com os alunos que me diziam respeito, eram as Clínicas das doenças crônicas, da geriatria. Então sempre doenças que o indivíduo leva pra casa melhorado, mas que em casa tem que continuar e tem que participar, se ele não participa, alguém da família tem que participar. A minha tese foi o conhecimento do paciente sobre o seu próprio tratamento. E eu acabei concluindo que ele não conhecia nada, o coitado. Que ele não conhecia... Não conhecia nada. Por vários motivos: primeiro porque ele achava que não precisava, segundo porque a família não participava, e terceiro porque a enfermagem estava precisando de uma estruturação, de uma orientação da família, que era precária, e orientação do próprio paciente, que também era muito precária.

Em que ano a senhora defendeu a tese?
Eu defendi a tese em 74, 73.

A escola de enfermagem era dentro da faculdade de medicina?
Não, não. A escola de enfermagem é um prédio a parte. A senhora conhece o Hospital das Clínicas? Conhece aquela rampa que desce para o hospital de ortopedia, né? Aquele prédio oposto da rampa é a Escola de Enfermagem.

A senhora saiu de lá enfermeira padrão, correto?
Sim, enfermeira de nível universitário. Naquele tempo chamava-se padrão mesmo. Hoje é enfermeira e ponto final. Enfermeira tem que ser universitária, não existe outra.

Não existe mais? Antes tinham cursos de enfermagem?
Sim. Mas ainda existem cursos de auxiliar de enfermagem, de técnico de enfermagem... mas enfermagem mesmo é nível universitário, é padrão, só pode ser. Quando uma pessoa se diz enfermeira é bom perguntar que tipo de enfermeira, qual é o curso, porque existe o curso de auxiliares de enfermagem, existe o curso de técnicos de enfermagem, que são inferiores: grau de conhecimento inferior, período inferior, tempo inferior também. São auxiliares que pertencem aos mesmo grupo.

A senhora ficou fora do bairro nesse tempo?
Não ficava exatamente fora porque eu vinha pra casa nos fins de semana. Às vezes à noite eu vinha pra casa. É que eu participei mais da condução. A condução pra mim foi uma beleza, uma beleza Mas infelizmente não atendia naquele tempo às Clínicas, não atendiam. (riso) Mas para os outros bairros foi uma beleza, Jabaguara foi uma beleza. Infelizmente Clínicas ficou muito para o fim. Infelizmente o nosso metrô deveria ter sido multiplicado, muito multiplicado nesses 25 anos e não foi. Cada governo deveria ter feito a sua parcela, mas infelizmente não fez, infelizmente Nós já deveríamos ter linhas de metrô percorrendo o subsolo da cidade inteira e mais dos bairros dos arredores e tudo mais, como nas outras capitais mais avançadas. Eu não vou comparar com a de Nova Iorque porque eu conheço Nova Iorque. Fiz um curso de um ano e meio de pós graduação também nos Estados Unidos, eu já era professora de inglês mesmo, não tive problema nenhum, mas eu conheci o metrô de Nova Iorque. É uma coisa fantástica o que ele alcança: a cidade de norte a sul, de leste a oeste... a senhora pode circular o dia inteirinho de metrô, 24 horas, mas infelizmente, muito mal conservado, muito mal conservado ainda. Ultimamente me disseram que está havendo uma campanha para reformar, para... sei lá, para melhorara o aspecto, muito mal conservado, impressionantemente imundo. O nosso? O nosso é uma beleza, é uma beleza o nosso: limpeza, é simples... não é que nem o de Moscou, que é um luxo de mármore, disso e daquilo... e pra quem usar? Não dá. Não dá e é pequeno também.

Por que? Não tem ninguém que usa?
Tem, mas o povo de um modo geral, o povo simples eu acho que não usa aquele metrô porque não vai para aqueles bairros que deveria ir, porque Moscou, por ser uma capital que foi anarquista, bolchevista, tem um metrô de luxo, metrô como se fosse o Louvre de Paris, é um absurdo, absurdo É lindo, muito bonito, uma coisa espetacular, mas não combina com o resto. (risos)

A senhora se lembra como eram os arredores por aqui antes do metrô?
Os arredores... Como é que era a vida do bairro, como era aqui a avenida? Eu cheguei a conhecer aqui, não morando aqui mas passando por aqui, porque para ir à escola eu passava obrigatoriamente pela Vergueiro inteirinha até a Praça da Sé, a Liberdade, a Praça da Sé.

A senhora ia de ônibus?
Não, bonde Bonde Que ônibus? No meu tempo era bonde, no meu tempo era bonde Não existia ainda, não Bonde Eu peguei todo o tipo de bonde, desde o bondinho até o bondão, até o camarão, tudo.

Qual era o camarão?
Camarão era aquele fechado, ele era fechado e era pintado de vermelho e amarelado. Muito abafado Muito abafado por ele ser fechado. Agora, os outros eram muito arejados, demais... por serem abertos. (risos) Então quando chovia ou ventava era uma tristeza Eles eram fechados com aquelas cortinas de lona que sempre escangalhavam, nunca seguravam embaixo. Quem sentava perto da saída, perto dessa cortina de lona, tomava banho de chuva se não abrisse o guarda-chuva e segurasse a cortina lá embaixo.

A senhora lembra das propagandas que tinham nos bondes?
Ah, lembro, lembro Tem uma que é especial.

Qual?
É aquela do Biotônico Fontoura. Aquela é especialíssima Até lembro das brincadeiras também que falavam de cobradores de bonde que na maior parte eram portugueses humildes, eram pessoas humildes, que tinham imigrado de Portugal, pessoas às vezes até analfabetas, mas que sabiam contar. Então havia uma brincadeira quando o cobrador - coitado do cobrador - ele ficava pendurado que parecia trapezista de circo. Era perigoso o trabalho, algumas pessoas ficaram seriamente machucadas, alguns morreram também. Ele tinha que passar às vezes por algum lugar onde quatro ou cinco pessoas punham um pé só no estribo e seguravam naquela vara, aquele pau para se segurar, porque não tinha lugar, nos bancos sentavam cinco, seis pessoas; em pé outras seis em frente dessas. Havia também os gaiatos. Naquele tempo ainda eu era aluna... no meu tempo de aluna de Caetano de Campos a gente andava uniformizada, era obrigatório o uniforme, e havia os gaiatos, que quando a gente ficava em pé na frente de algum gaiato a gente percebia alguma mão boba. Ah Sim, sim Então a gente procurava sempre ficar na frente de mulheres, de crianças, não de gaiatos. Existia tudo isso. Talvez eu esteja colocando uma coisa estranha, mas ainda existem os gaiatos. A senhora estava contando que os portugueses que ficavam para fora... Havia uma brincadeira curiosa. Realmente ele tinha que receber a passagem e dar o troco, tinha que ser uma artista circense, era uma coisa impressionante, o coitado do cobrador. Era uma coisa perigosa. Muitos deles sofreram acidentes sérios, alguns morreram também. Eles eram pessoas que ficavam penduradas com uma mão, com a outra tinha o dinheiro, as notas, com a outra tinha aquela sacolinha a tiracolo com o troco... o trocado... nesse tempo também existiam passes escolares e tudo mais; ele tinha que registar naquele reloginho puxando uma alcinha que registrava as passagens. Então era muito comum ele receber três, quatro passagens e registrar... (risos) Então ficou famosa essa história, que o português – o brasileiro falar de português é uma coisa incrível, como se ele não fosse descendente dos portugueses. A gente fala mal dos próprios ancestrais – ele dizia: “Três pra Light e um pra mim.” (com sotaque português) Era essa a brincadeira. Mas a gente compreende. Eles era muito mal pagos a Light. Naquele tempo era a Light que era a companhia canadense que era a dona do bondes, das linhas de bondes. A senhora falou que tinham dois tipos de bondes abertos. Tem aquele pequeno, o pequeno que ainda está em exposição, parece que está em exposição no Ibirapuera, que às vezes dá umas voltinhas, e tinha o bonde grande, o "Ponte Grande", chamavam, mas era porque ele ligava o Jabaquara à Ponte Grande, fazia um de horas, horas, horas. Nós tínhamos amigos que moravam em Santana, a gente fazia isso, era um trajeto incrível esse bonde.

Passava pela Liberdade?
Passava pela Liberdade, passava pelo centro da cidade, passava pela rua Florêncio de Abreu e ia e seguia em direção a Santana. Era impressionante o trajeto.

Esse comercial do Biotônico, o que ele falava? A senhora lembra?
Lembro perfeitamente. Dizia o seguinte: "Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que está sentado ao seu lado; No entanto, acredite Quase morreu de bronquite...” “Salvou-se não fosse o Creosotado.” Esse era o do Creosotado, mas tinha o do Biotônico Fontoura também, tinha o do Biotônico Fontoura. É outro. Acho que é parecido. Como é que funcionava o Biotônico Fontoura. O do Biotônico Fontoura fizeram muitas piadas de portugueses também, por ser Fontoura. Contava-se a piada que um imigrante português, o Comendador Fontoura, famoso no Brasil, ele era dono de indústria, ele era uma pessoa que fazia muitos benefícios à colônia, aos recém chegados, desamparava e tudo mais... Então, os portugueses recém chegados sempre se referiam a ele como uma pessoa fantástica, como uma pessoa que venceu, uma pessoa que se tornou um potentado no Brasil, e certa vez um imigrante português, andando pela cidade perde-se do filho, uma menino... perdeu-se, não sei como, pois naquele tempo a cidade não era pra se perder, mas ele se perdeu – hoje sim, hoje a cidade é realmente difícil. Ele se perdeu e ele foi pedir auxílio ao Comendador Fontoura para procurar este menino e justamente esse menino chamava-se Antônio, Tonico. Ele, andando de bonde, ele não sabia quase ler, ele viu lá "Fontoura" e não conseguia quase ler. Ele pediu para alguém ler pra ele, e essa pessoa leu, disse: "BI-O-TONICO Fontoura É um recado do Fontoura pra mim.” Quer dizer, o Tonico, o filho dele que havia se perdido. Essa é a piada mais absurda do mundo. Era: “Bio, Tonico, Fontoira.” Até dizia Funtoira. Ele foi correndo, segundo a piada, a história, procurar o Fontoura pra saber do Tonico. Incrível.

Esse bonde que passava aqui na Liberdade, além do trajeto lá e cá, ele ia por onde?
Não, ele ia pelo pontilhão. Sim, o pontilhão é para as duas mãos, aquela parte alta, era para as duas mãos, a que vinha e a que ia.

Mas era mão dupla?
Era mão dupla de bondes e carros, de tudo.

Os que iam pra lá para a cidade iam pra onde?
Iam para a Praça da Sé, pegavam a 15 de Novembro, depois o Largo São Bento, entravam na Florêncio de Abreu e seguiam em frente, lá para a zona Norte.

E do lado de cima, da Paulista?
Do lado de cima como, da Paulista?

Como é que eles subiam pra Vergueiro?
Subiam por aqui mesmo.

Sim, mas iam até onde? Qual o trajeto?
Eles iam até a Vila Mariana, existia uma estação na Vila Mariana, uma estação de bondes. Inclusive, existe ainda hoje uma rede de alta tensão, um posto de alta tensão na Vila Mariana, na esquina da Afonso Celso com a Vergueiro, ainda existe um finzinho de estação de bondes.

Aquela estação era de bondes ali? R –
De bondes. Mas foi cortado, foi tudo cortado, remanesceu só aquele prédio, que ainda hoje é um ponto de entrosamento de linhas alta tensão. Da Eletropaulo. Agora é Eletropaulo. Seguia depois em frente.

Quando acabou a bagunça do metrô ficou então uma avenida larga de mão dupla? Como é que funcionou isso?
Funcionou bem, funcionou bem sim, aliviou bastante.

As pessoas que fugiram começaram a voltar ou não?
Não, infelizmente não. Apareceram outras pessoas: alguns que ainda tiveram coragem de permanecer, permaneceram. Eu permaneci porque não tinha problemas, mas as compras que a gente fazia na esquina, dobrando a esquina, ou na outra quadra, acabaram. Aí foi preciso fazer compras no Barateiro aqui em cima, foi preciso fazer compra aqui no Sé, aqui embaixo, foi preciso fazer compras mais longe... aí ficou o problema da entrega.

E essa coisa de ser bairro oriental, como é que é isso?
Olha, isso é curioso. Isso deve estar muito ligado – eu não conheço a história bairro oriental – mas isso deve estar muito ligado à imigração da Guerra, depois da Segunda Guerra Mundial, depois de 1945, em que o Japão ficou arrasado com as bombas atômicas. A gente ainda hoje acha que foi uma tristeza, que os americanos não vão ter perdão nunca na vida... mas foi uma coincidência, provavelmente. Agora, a imigração se tornou cada vez mais intensa porque os imigrantes trabalhavam no interior... lá eles mealhavam o dinheirinho e vinham fazer o seu comércio aqui, vinham empregar o dinheirinho aqui. Alguns mudaram para outros bairros, mas conservaram sempre o comércio aqui, e hoje em dia o comércio aqui bastante de orientais. Não temos mais só japoneses, nós temos alguns japoneses porque a maior parte já mudou-se, temos um grande número de coreanos, um grande número de chineses, e assim está acontecendo também em outros bairros como o Bom Retiro e a 25 de Março, que era reduto sírio-libanês; Bom Retiro reduto judeu, e agora é reduto oriental. É devido aos problemas políticos do Oriente, que são tristes Tristes mesmo: fome, miséria, guerra... é uma coisa tremenda Se a senhora pudesse... tem alguma coisa assim... como é que a senhora gostaria que esse bairro fosse? Que ele fosse menos sujo. Está muito sujo. Infelizmente está. E isso é desleixo de autoridades, de serviços sanitários. Isso está ligado com corrupção administrativa, nós sabemos disso muito bem. Isso está ligado do pequeno para o maior, quer dizer, do fiscal que chega aí e que deveria multar o fulano e o fulano passa a mão no bolso e não multa.

Dona Aracy, a senhora lembra a primeira vez que a senhora andou de metrô, as primeiras vezes?
Lembro.

Conta pra gente então, pra onde a senhora estava indo, o que é que a senhora sentiu? Olha, primeiro eu senti um pouco de receio, não sei porque.

Da terra?
Eu acho que é porque eu assisti tanto aquele movimento de obras e não sei o quê, eu dizia: “Espero que isso não caia sobre a minha cabeça" Bobagem Porque eu vi o trabalho deles, eles trabalharam de uma forma... o quê eles trabalharam foi uma coisa espetacular As turmas que se revezavam, turmas de operários, foi um trabalho incessante, incessante 24 horas mesmo Não houve economia nesse ponto, foi feito mesmo a capricho. Agora, no começo a gente fica um pouco ressabiada, depois fala: "Isso aqui é muito firme", lembrando as toras que eu vi lá sendo serradas com serra elétrica: "Não isso aqui é muito firme." Eu não tive mais problemas. Eu não gosto de ambientes fechados, mas não tenho problema de claustrofobia nenhum, já conheço pessoas que têm a minha idade e dizem: "Ah, eu não suporto o metrô, porque é tudo muito fechado.” Eu digo: "Ah, é muito fechado mas também tem muito ar pra ser respirado."


A senhora usa bastante o metrô? Só uso o metrô. Onde eu posso eu vou de metrô. E quando eu não posso ir de metrô eu até escolho os ônibus que são os verdinhos, porque com esse problema da minha coluna, do meu olho... eu tenho quase um olho cego, este olho, e com a minha coluna e os meus problemas de circulação das pernas eu tenho que escolher até o degrau do ônibus senão eu não subo. Tem uns ônibus antigos que eu risco completamente do meu mapa, eu reconheço de longe, nesse eu não subo, que pra subir precisa de alguém atrás que me impulsione, não é possível. E continuam circulando, infelizmente. Agora, os mais moderninhos são mais acessíveis. Inclusive tem aquele suporte lateral que a gente se segura com tranqüilidade e tudo mais, mas o verdinho é o ideal, os chamados terminais. Deixa eu perguntar uma coisa pra senhora pra gente acabar. Meu Deus, eu não estou tomando muito o tempo de vocês com a minha... A gente ainda tem mais uma hora se a senhora quiser falar. Mas assim é demais. (risos)

Qual é o sonho que a senhora tem pra realizar, o que a senhora gostaria de fazer?
Difícil responder. Se eu tivesse condições financeiras eu acho que eu enfrentaria uma viajem até por mar. Eu gosto muito de viajar por mar.

Até onde a senhora gostaria de ir?
Até onde o meu dinheiro desse. (risos) Eu gosto muito de viajar por mar. Eu, quando eu voltei dos Estados Unidos, quando eu fui, eu fui de avião, eu fui em cima da hora de matrícula, essas coisas. Mas quando eu voltei dos Estados Unidos, ah... fiz questão de vir de navio e vim num navio misto: cargueiro que leva 12 passageiros. Ah, foi uma delícia, uma beleza

Que navio era?
Chamava-se... como é que ele se chamava? Era da frota americana de... oh, Meu Deus do Céu Eu sei que depois de um ano que eu viajei com ele, ele foi recolhido, que era um navio antigo, um navio já precisando de ser reformado, mas foi uma beleza Só 12 passageiros, que na realidade se reduziram a dez. Então, ah Uma delícia A gente tomava as refeições com o capitão, com o mestre, com toda aquele grupo de oficiais. Não com trajes de gala, trajes simples. Nada de navio de luxo. Eu escolheria mesmo um navio cargueiro, misto. (risos) Porque é interessante um navio cargueiro. Quando ele pára num porto é um movimento espetacular. Eu gosto muito de ver movimento de pessoas, de coisas. Então ele fez três paradas de Nova Iorque para cá: uma foi em Savana, na Geórgia, na Costa Americana; depois a outra foi em Recife; depois a outra foi no Rio de Janeiro e finalmente Santos, que era o meu destino. Observar o tipo de pessoas que trabalham nas docas desses três portos foi uma coisa muito curiosa, muito curiosa Eu só percebi, dei consciência que eu estava no Brasil quando, no porto de Recife, a carga e descarga foi a mais ruidosa, barulhenta, gritante deste mundo, e entre os gritos, aquelas palavras que a gente costuma colocar uma tarja preta na televisão. (risos) Eu disse: “Ah, estamos no Brasil.” Porque nos outros portos eu fiquei impressionada com o silêncio, com o trabalho em silêncio que eles fazem nas cargas e descargas: “Opa, será que é só nesses portos?” Não, foi em Nova Iorque... o nova iorquino é desbocado, mas no carregar e descarregar ele é comportado, pelo menos com passageiros, certamente onde há somente navios de carga ele provavelmente solta mais o verbo. Mas em Savana, na Geórgia, eu notei que como Savana foi um estado que teve escravos, escravagistas, então a maior parte dos carregadores eram negros, e lá ainda existe no interior, principalmente em Savana, eu notei, existe ainda a discriminação. Ah, existe Eu estou falando de quase 20 anos atrás, não é dona... Mas eu sei que ainda existe. Lá os carregadores eram todos negros e eles trabalhavam no mais completo silêncio, até pra andar, eles usavam aqueles chinelos, eu até estranhei porque quando eu acordei de manhã, umas seis horas, eles estavam fazendo aquele trajeto de carga e descarga há horas e eu não tinha percebido. Mas quando chegou em Recife a coisa foi diferente.( risos) A senhora queria acrescentar mais alguma coisa, a gente está chegando ao fim da entrevista.

Faltou alguma coisa importante?
Sim, eu gostaria de acrescentar que eu sinto muito que os governos, que os nossos governos não tenham dado ao metrô a importância que ele deveria ter, que ele deve ter como um meio de comunicação seguro, limpo, rápido e até um certo ponto mais econômico também, poderia ser mais econômico se houvesse mais interesse por parte das autoridades que deveriam ampliar muito mais estas linhas, mais muito mais mesmo. Eu nunca pensei que fosse ficar nesse pinguinho de quilômetros que nós temos.

Quantos quilômetros são?
Quarenta e não sei quanto, né? Ah, é muito pouco.

Onde a senhora acha que deveria ter estação de metrô?
Principalmente naqueles bairros limítrofes, onde o povo precisa de condução. Ele está chegando, já chegou na Vila Madalena, já chegou Tucuruvi, já chegou... até onde mais? Só. Itaquera. Itaquera, sim, onde o povo mais necessitava e necessita de metrô. Outra coisa muito importante também é a integração que o metrô está fazendo com ônibus, porque este povo não apanha o metrô na porta de casa, ele apanha o metrô depois de um velho percurso de ônibus e aqueles ônibus escangalhados que a gente conhece, que vem feito lata velha. E também integração com trens, subúrbios, que está havendo e que fosse mais acessível ao povo. Isso é um problema de se estudar um meio de ajudar, porque é uma condução ideal, depois que inventaram o metrô. O metrô pra mim vem em primeiro lugar, depois vêm os ônibus verdinhos e depois quem me ofereça condução no seu próprio bairro, só.

Está bom dona Aracy, obrigada.


História do Morador: Fernando Duarte do Amaral
Local:
São Paulo
Publicado em: 11/09/2003

História de Vida

História:
A gente vai começar a entrevista pedindo para o senhor falar de novo o nome completo do senhor. Fernando Duarte do Amaral. E aonde o senhor nasceu? Nasci aqui em São Paulo, no Bom Retiro. Que dia? Dia 27/2/1933. 1933. E o nome dos pais do senhor? Meu pai, Joaquim Duarte do Amaral e Ondina Duarte do Amaral. O que eles faziam, seu Fernando? Meu pai era funcionário lá da Cavalaria. Ah, é? Da Força Pública. Minha mãe era dona de casa. E ele trabalhava ali no quartel, ali no Bom Retiro? Ele trabalhava no Bom Retiro, no quartel. Não, no... Na Estação da Luz. Na Luz, ali? É, na Estação da Luz. Rua Jorge Miranda. Ah, tá Não era no quartel Tobias de Aguiar não, né? Não, não. Era um pouco para frente. Um pouco mais para frente. E o que o senhor lembra do Bom Retiro quando o senhor era criança?

O senhor morou lá muito tempo? Olha, logo que eu nasci, eu vim... Fiquei pouco tempo e vim para a Vila Mariana, Vila Clementina, rua Doutor Bacelar. Aí depois aí, fui para a Praça, antigamente, para a Chácara Inglesa, fui para a Chácara Inglesa, rua Correia de Leme de Ney Barbosa. Aí, quando foi em 1949, aí fomos para o Jabaquara e estou até hoje, morando lá no Jabaquara. Só em uma casa, estou há 30 anos, na Cidade Varga. Mas, e aqui na Vila Mariana, qual foi o lugar que o senhor passou mais tempo, assim da infância? Ah, foi para o lado do Jabaquara. Foi lá? É. Como é que era o bairro lá? Bom, lá não tinha condução, tinha bonde. O bonde só chegava até a Igreja São Judas Tadeu e depois, dali tinha que ir embora a pé. Não tinha ônibus? Não. Aí depois, que puseram esse oito... mas também não adiantou porque quando chovia, ele ia... Ele ia recolhendo mais para trás porque era muito barro. Ah? Então ia recolhendo. Então, depois puseram um tal de "Papa Fila" que saía em volta do Fórum novo na Praça da Sé. Aí, continuando... Aí, começou uma lotação aí, tinha uma lotação que saía aqui, da Praça João Mendes.

E o tipo de lotação era... O carro era grande, era o Galaxy e cabia dez pessoas. É mesmo? É. Era enorme, né? Para fazer a lotação e aí levava até o ponto final do Jabaquara. Que legal. E depois, tinha que andar a pé? É, mas eram poucos minutos, né? Não chegava a 15 minutos, daí onde eu morava para chegar até... Descendo da lotação para ir até em casa. Era uns 15 minutos mais ou menos. E era longe para o seu pai trabalhar? Não, porque nós estávamos sempre acostumado, né? Porque melhorou. Porque quando tinha a condução era isso. Melhorou agora, depois que começou o metrô, mas antes não era. Porque era ônibus, né? Tinha mais acesso, né? Porque eu descia aqui, na Praça João Mendes que era no tempo do bonde, que ele fazia um balão aqui, na Praça João Mendes, perto da Santa Tereza. Depois, tinha um ônibus que continuava indo para lá.

Se não ia a pé até a rua São Bento, aí pegava o bonde, que tinha um bonde do lado da São Bento, ia até a Jorge Miranda na Avenida Tiradentes, na Estação da Luz. Agora, o senhor andou de bonde? Andei de bonde por muito tempo. Você gostava? Eu gostava. Devia passar calor por causa do tempo da escola, né? Então, passava calor. Tinha um bonde pequeno porque nós trocava por um grande. O grande era 20 centavo, 18 réis, né? E o pequeno era um tostão. Então, nós preferia passar... Passar calor no grande porque quando chegava na escola, escola Marechal Floriano que é aqui na Domingos de Morais, depois lá vendia uns pastéis, três pastéis por 20 centavos. Então, nós queria passar a carona já nesses 20 centavos porque quando vinha para cá, sempre tinha aquele lanche na hora do recreio. Que legal E a casa do senhor? Como é que ela era, descreve para a gente o que o senhor lembra.

Quando eu morava na Chácara Inglesa era casa de madeira e a minha mãe não gostava que falava que era casa de madeira. Era casa de... Não, nós falava que era um barracão. Ela não sabia que falava que era barracão. Aqui é uma casa de madeira. Depois, o teto era de zinco e quando chovia que era aquela chuva de pedra, aquele barulho. Nossa (risos) E aqui no Jabaquara? No Jabaquara, eu já morei em umas casinhas já de... Casinhas boas, né? Graças à Deus e hoje, estou numa casa boa, porque estou nessa casa há 30 anos porque consegui pelo Estado, que foi muito difícil também na época para conseguir essa casa. Aí depois, eu fiquei um ano sem poder pagar, aí como nós tinha um juiz porque eu trabalhava com um juiz e a irmã dele era diretora lá do IPESP. Então, eu fui conversar com ela que eu queria entregar, mas ela disse: “Não, vamos pagar um mês, no mês decide porque se você puder pagar o outro mês aí”... Graças à Deus, acertamos tudo, já estou com a escritura pronta e estamos na casa até hoje. Ah, que legal. Mas, o senhor disse que era do IPESP? Do IPESP, a casa. Era o que?

Um financiamento? Um financiamento. Podia fazer um financiamento, né? Eu tinha que mostrar... Apresentar a minha renda, mas como a minha renda não chegava, não alcançava o empréstimo, eu tinha que arrumar uma pessoa que morasse com nós. Então, pusemos o nome de um cunhado meu para ficar... Para sair o empréstimo, né? Para comprar a casa. Então, quantas pessoas que moravam na casa? Quanto tempo? Não, quantas pessoas moravam na casa? Quando nós compramos era só eu e a minha... Não, mas já...Quando compramos, já era quatro pessoas. Foi eu e a minha patroa, minha avó e a filha quando nós compramos essa casa. Então, nós já passamos a sua infância? Ah, já. A casa dele. É, a minha casa. E a casa da infância, vocês eram em 11 irmãos? Não, nós éramos irmãos, mas morava na Doutor Bacelar naquela época, rua Doutor Bacelar na Vila Clementina quando nós éramos 11 irmãos. Aí, foi falecendo, falecendo, hoje em dia, nós estamos em dois. Eu e a minha irmã. O senhor é o que número nesses 11? O primeiro, é o último? Ah, eu acho que dos homens, eu era o último. Não, eu era o penúltimo porque morreu um mais velho que eu... Quantos homens tinham, quantas mulheres?

Eu acho que tinha umas quatro... Umas quatro mulheres e uns seis homens... Sete homens, quer dizer. E assim, dentro da casa tinha divisão de tarefa para as mulheres ajudarem a mãe? Os homens... Não, não. É que era tudo pobre, né? Naquela época, nós era pequeno, então... Mamãe saía para lavar um pouco de roupa, né? Para ver se ajudava dentro de casa porque o que o meu pai ganhava quando era na cavalaria, o meu pai trabalhava em três lugares. Ele trabalhava de táxi quando era a folga dele e o motorista do carro... Do táxi, ia render ele na cavalaria, então ele pegava o táxi e trabalhava. Depois, fim de semana, ele ia fazer uma folga de um guarda também, guarda noturno que trabalhava no depósito da Antártica em frente a Igreja São Judas Tadeu. Então, ele trabalhou sempre em três serviços que era para ver se dava conta da casa. O depósito é lá no Jabaquara? É no Jabaquara. Agora não tem mais. Agora é no começo da Imigrantes, ali em frente a Igreja São Judas Tadeu. Ah, que legal. E os filhos trabalhavam? Algum filho trabalhava? Não. Ninguém? Fazia assim, um biquinho, trabalhava em loja, mas não ganhava aquele suficiente. Era uma mixaria, que eu não sei nem como é que falar da quantidade que era, né? E a escola, como é que era?

Todo mundo saía para a escola? Freqüentava escola. Eu freqüentei a escola Marechal Floriano, como era muito triste, eu fui até... Como é que diz? Que eu fui mandado embora, como é que fala? Foi expulso? Fui expulso. O senhor era muito triste? Era sim. O que o senhor aprontava? (risos) Eu aprontava muita arte porque eu não gostava também de tomar injeção, vacina, arrancar dente, então, como eu era o maior da classe... Então, quando ia para mostrar os dentes, para ver se precisa arrancar, eu passava na porta e fugia. Aí, tinha um colega que levava os meu material que morava lá, perto de casa. E também, quando era para tomar injeção, vacina, passava eu. Eu era o maior da classe, então eu sempre era o último. Quando passava assim, perto da porta, eu... Caía fora. (risos) Daí, depois de manhã... Aí, no outro dia, eu já recebia aquela bronca, né? E eu não parava, né? Não queria tomar injeção. Aí, eu fui com... Mas, sem ninguém ficar sabendo, eu me matriculei também, numa escola ali, na Avenida Bosque da Saúde... Agora, eu não lembro o nome da escola.

O senhor se matriculou escondido? Escondido. Por que? Não, como era... Eu tinha sido mandado, então pedi informação. Então, eu mesmo fui lá, me matriculei, mas também, eu não fiquei muito tempo. Também, já juntei a minha malinha e voltei para casa. E seu Fernando, quando que o senhor começou a trabalhar? O senhor tinha quantos anos, mais ou menos? Comecei a trabalhar com 11 anos numa loja de móveis, aqui na rua Vergueiro, esquina da... Onde tem o Pão de Açúcar hoje? Que ali tem uma loja de móveis. Que desce lá pra... Não é zoológico. Biológico. Ah, Instituto Biológico. É, que tem aquela avenida enorme que saía até lá em baixo, né? Eu trabalhei ali no... Rodrigues Alves? É, rua Rodrigues Alves, que tinha o bonde também. Aquele bonde camarão também, que quando ele descia, isso aí quando descia, dava para assustar, né? Descia a toda? A toda. Aí, tinha que soltar um pouco de areia no trilho que era para poder segurar as roda. Nossa Que medo. (risos) E como.

Era bom? Não, dava medo porque você via que ele fazia muita assim, que era para soltar e não segurava, então ele ia soltando areinha para ver se trancava um pouco as roda. E o senhor trabalhava na loja. O que o senhor fazia na loja de móveis? Era mais para tirar os pó e coisinha pequeninha assim, era para entregar em casa, na mão mesmo. Cadeirinha, banco, pequenas coisas, né? Então, depois daí, eu fiquei... Eu acho que uns quatro anos, depois com 15 anos eu vim trabalhar em uma cartonagem, aqui na Vergueiro. Eu trabalhei também, muitos anos aí, entre dez, quinze anos aí. Aí depois, eu... Como é que é esse serviço de cartonagem? Na cartonagem, eu era granpeador... Fazer essas caixas de sapato, né? Fazia essas caixas, depois quando fazia um, era... Juntava bastante porque não tinha muita menina porque eles não queriam pegar menina. Quando a gente juntava aquele monte de caixa, parava um pouco a máquina que era para pôr uma caixa dentro da outra, para depois grampear as tampa. E para que seriam essas caixas? Essas caixas era para sapato.

Tanto para sapato, pois tinha umas caixas também que costurava, que era para... De papelão, tanto de papelão angulado que fazia as caixas que ia servir assim, para pôr sabão, do tempo do sabão Minerva. Fazia caixa do sabão Minerva? É, fazia umas caixas de papelão, ia para a fábrica. Depois, na fábrica eu desabria a caixa, montava a caixa para pôr sabão Minerva. Olha O senhor lembra que loja de sapatos comprava as caixas? Era bastante, que também a fábrica era... Uma sapataria que tem uma loja aqui... Uma fábrica que tinha aqui em baixo na... No Lava-pés. Era Quá Quá, a fábrica chamava Quá Quá, né? Também, foi nessa época também assim, uns tempos atrás. Depois, aí vim conhecer a minha patroa aqui na loja... Nessa fábrica. Aí, começamos a namorar e trabalhamos juntos para cá. Aí, foi para a outra fábrica, trabalhamos juntos. Depois, quando eu fui... Aí, ela mudou, foi para o Jabaquara. Logo depois, foi eu. Continuamos namorando... E casaram? É. Ela trabalhava na fábrica também...

Também trabalhava na fábrica. Ela era passadeira que passava a cola na tábua para depois colar os papel. Ela passava a cola na tábua, colava os papel e punha assim e a moça ia fechando uns tipo de caixa, também com aquelas fita de papel. E onde que vocês saíam para namorar? Não, nós trabalhava já... Ia trabalhar sábado e domingo porque era extra, então o patrão pagava para nós. Depois, aí ele levava a turma para casa, que ele morava na Praça da Árvore hoje em dia. Depois, ele levava nós até em casa que era dele, já estava morando para lá e eu já estava morando. Então, nós gostava ir trabalhar de sábado e domingo. De sábado até às 12:00... De domingo até às 12:00, depois o sábado o dia todo, né? Porque ele pagava na hora, entrava aquele troquinho... Pagava na hora? Pagava na hora porque era hora extra. Aquele pouquinho já ajudava em casa que era para comprar o pão...

O pão, o leite... Era difícil naquela época. E vocês casaram na Igreja... Casamos na Igreja, graças à Deus. Na Igreja São Judas Tadeu... Vocês são devotos de São Judas? Não? Não, eu sou devoto mais de Cosme Damião, né? Que quando eu fiquei doente, eu fiz um pedido para ele e alcancei porque eu não queria passar por uma cirurgia, né? Tinha me estourado a minha úlcera e eu fiquei com medo de ir para a mesa de cirurgia para ser cortado. Então, eu falei... Eu fiz o pedido para Cosme Damião, se ele me ajudasse e enquanto estivesse em vida, eu compraria os doce e ia distribuir. E nos primeiros dias, eu estava fazendo... Muitos anos atrás, eu fazia as festas em casa de Cosme Damião, né? Ah, é? É. Como que é essa festa? Porque tinha uns colega aí, do Fórum que eles também recebiam, então eles também tinham esse dom para fazer essa festa. Então, nós fazia.

Então, quando era de tardezinha, todo mundo já vinha com o seu banho tomado, trazia roupa, que tinha que tomar uns dois banhos, banhos de defesa, né? Aí, trocava a roupa... Quando era 18:00, já começava a festa, já recebia um dinheiro... Depois que terminava aí, então distribuía saquinho de doce e uma guaraná, naquela época. Que ainda dava para comprar guaraná. Mas, era uma cerimônia de umbanda? De umbanda. Você vai ainda é umbandista? Eu freqüento. E todo ano, o senhor faz a festa de Cosme Damião? Eu faço. Agora, de uns tempos para cá, nós estamos indo em Santos, no dia 12 de... Agora, dia 12 de outubro que é Dia das Crianças, né? Então, no começo quando nós estava lá em Santos, lá em Peruíbe, nós faz essa festa e nos primeiros dias... Porque era tão chato porque ninguém fazia, ninguém sabia de nada. Então, nós pegava e comprava os doces, e saía com sacola, ia dando doce assim, para as criança.

Depois, daí então, nós começamos... Eu disse: “Bom, a partir de agora, como nós estamos conhecidos aqui em Peruíbe, então nós vamos fazer o bolo, fazer o saquinho de doce, fazer um balde de suco e sanduíche de salsicha, cachorro-quente para as crianças. Agora, nós faz sempre no dia 12 de outubro, lá em baixo em Peruíbe. Isso aí, o senhor está pagando uma promessa? Pagando uma promessa para dar doces para as crianças mais pobre, né? E quando o senhor fez isso, o senhor tinha que idade? Quando eu fiz esse pedido? Eu era solteiro... Não, era casado. É isso. Faz uns 40 anos atrás que estourou a minha úlcera porque inclusive, eu falei para a minha patroa: “Eu não comi fígado, eu não comi beterraba e saiu aqueles pedaços.” Eu fiquei assustado. Aí, o meu cunhado veio, me levou no Pronto-Socorro, aqui no Hospital Modelo que é Tamandaré. Então, ele trouxe eu aí, o médico me examinou e o ambulatório era na frente, né? Examinou, e disse: “O senhor vai ter que ficar internado urgente.” Aí acabou de assustar.

Eu fiquei com medo e disse: “Doutor, não dá para mim ir em casa pegar o meu chinelo, pegar a minha roupinha, minha escova de dente? Depois, na frente... Aí, eu lembrei do tempo da escola que eu ficava atrás e fugia. E disse: “Será que esse é um professor também?” Já veio junto comigo. Depois, na frente, chegou lá, falou: “Faz uma ficha de internamento para esse moço, urgente. Ele tem que deitar imediatamente.” Aí, eu fiquei só chorando, chorando, chorando. Aí, eu fui medir a pressão. Nervoso, a pressão foi lá em cima. Aí, puseram na cadeira de rodas, já tinha arrumado o quarto, né? Que é tipo apartamento. Aí, fechou a pista, vai ficar... Ficou o meu cunhado e eu andando para lá e para cá, nervoso e chorando. E olhava assim pela janela, para o lado do necrotério, e eu via muita gente. Eu disse: “Será que eu vou sair daqui e vou para lá?” Aí, que eu chorava mais. Aí, veio o enfermeiro, bateu no meu cunhado, pegou e falou: “Pode entrar.” Aí, quando o enfermeiro... “Senhor Fernando, era para o senhor deitar urgente.” Eu disse: “Não, eu não estou querendo.” “Não, deita lá.”

Pegou já eu, suspendeu a roupa de cama, já pôs eu deitado lá, já tinha vindo com a caixa de remédios, trouxe aqueles remédios para mim. Aí, eu tomei, foi melhorando, melhorando... Eu já tinha feito o pedido. Quando o médico veio fazer a visita, com aqueles remédios que eu já tinha tomado daquela hora. Era mais ou menos umas 14:00, daí quando ele veio fazer a visita, no dia seguinte, eu já estava bem melhor já dos remédios, né? Não queria passar por uma cirurgia, graças à Deus... Aí, ele liberou o senhor? Não, eu fui melhorando, melhorando, eu tinha que ficar, que era para... Melhorar para tirar a chapa assim, que era para mostrar o peito como é que estava e tal. Aí, não precisou ser operado? Graças à Deus, não precisou. Ai que beleza Graças à Deus. O senhor tinha quantos anos? Eu tinha... Eu acho que uns trinta... Uns 27 anos. É, porque casado de novo, casei com 22. Aí, o senhor me disse que o senhor tinha trabalhado aqui, como funcionário público, né? No Fórum? No Fórum, em cinqüenta... No fim de 1956.

Aí, o senhor entrou nesse ano aqui? No Fórum? Em 1956, eu entrei no Fórum em 1956. Aí, então, como eu estava trabalhando no bar, então aí, eu comecei no bar e no Fórum. Daí, depois, naquele bar onde está os meninos. Aí, depois o meu patrão falecido falou: “Fernando, quanto você ganha aqui?” Eu disse: “Eu ganho X.” O senhor não quer já vim amanhã para... Eu pago a mais.” Eu disse: “Não, para mim deixar os outros patrão na mão...” Isso foi numa terça-feira, eu disse: “Então, deixa para sábado, né? Eu aviso ele, venho na quinta e na sexta. Depois, sábado...” Quando foi no sábado, eu já entrei para trabalhar no Paulistano. Aí, eu fiquei lá um... Ah, espera aí, o senhor está falando de trabalhar no Paulistano?

É, porque eu trabalhava no Fórum e no Fórum, eu entrei em 1956. No fim de 1956. Aí, eu trabalhei 37 anos no Fórum. Mas aí, o senhor sempre fazia o quê no Fórum? Eu quando entrei, eu era servente. E como meu falecido, o meu sogro era ascensorista, chefe dos ascensorista, daí depois de três meses, ele me arrumou para passar como ascensorista. Aí, eu fiquei como ascensorista diversas... Muitos anos, aí depois... Eles gritava comigo, eu não aceito que ninguém grita comigo, aí eu andei querendo pegar uns lá, né? Aí, quando eu fui... Uns 22 anos para cá, então foi instalado o Tribunal da Vara Criminal, aí mandaram 300 mal elementos. Mas, como eu fiquei sabendo que era tudo mal elemento, então tinha 30 dias de prazo para tomar posse. Então, foi no último dia para tomar posse, no último dia que era para vim tomar posse no Tribunal de Vara Criminal.

Aí tem um colega que já era diretor da alçada criminal, foi instalado a pouco tempo naquela época, então, anunciou um diretor com uma diretora. Eu, como educado, mandei a diretora entrar, e depois esse colega entrar. Aí, veio esse diretor disse: “Que esse negrão veio fazer aqui?” Eu disse: “Eta.” Eu falei para o colega que era moreno também: “Fala para ele que a única coisa que ele pode fazer comigo é mandar de volta porque não vai fazer nada.E ele não conhece eu não porque se ele falar mais uma vez que esse negrão... Mas, ele era tão bom. Mas, é o modo dele... De falar. De falar, mas gostei dele depois de uns cinco dias. Você tinha que ver, não tinha pessoa melhor do que esse diretor. É mesmo? Graças à Deus. Mas, como é que você escapou de ser mandado embora? Você disse que tinha mandado 300...

Não, mas ao mesmo tempo, mandava para os outros tribunal, né? Para instalar porque precisava funcionário. Que estava instalando, então não tinha feito o... O concurso? Não foi feito o concurso, então pediu umas pessoa emprestado lá. Nesses 15, 20 dias, 20 anos, quem ficou lá todo esse tempo, 22 anos, só foi eu. É mesmo? Só eu. Eu estou lá, que é dessa época dos 300 mal elementos, né? (risos) E o senhor ficou fazendo o quê nesses 22 anos? Aí, quando eu vim, puseram... Nós trata assim, carro das malas, né? Que é para pegar os processos e levar na casa de juiz. De juiz, ia por telegrama aqui, que vem de desembargador... Negócio de aniversário que foi promovido também, então a gente saía para levar. Então, era mais para casa de juiz. Naquela época, nós tinha 25 juiz e tinha duas peruas. Uma fazia um bairro e outra fazia outro bairro. Então, nós fazia mais era a Zona Sul. Eles morava tudo no Morumbi. Então, nós tratava...

Quem vai para a favela judiciária, que era tudo, né? Era a favela judiciária que a gente entregava. Às vezes, outro trocava porque tinha o Primeiro Tribunal, tinha o Segundo Tribunal Cívica, mas escolheram um papel... O cara para entregar, eu disse: “Não, pode deixar que a gente leva lá.” Aí, entregava os papel e depois, dava o canhoto assinado para a pessoa que tinha recebido. Graças à Deus não houve erro. E essa história dos 300 mal elementos, era aqui na João Mendes? Na João Mendes. E o da Clóvis Soares? Era na Clóvis o Tribunal de Justiça, o velho. Depois, veio para cá na João Mendes, aqui na praça João Mendes. Mudou de lá? Não, ficou lá. Ainda continua. Mas, o que foi instalado nas Varas Civil... Antigamente, funcionava até o 12 andar. Aí, então já está no 27 andar e todos os 27 estão sendo ocupados por funcionário. É juiz, diretoria, enfermaria, sala de lanche para os juiz, refeitório para o juiz. Tem 27 andar que funciona nesse Fórum João Mendes. Espera um pouco, deixa eu ver se entendi; o prédio que você está falando é do Fórum novo? Do Fórum novo. É que eu vim para cá, eu trabalhei...

E de Alçada é o outro lugar? O de Alçada funcionava nesse novo, o Tribunal de Alçada Criminal funcionava no décimo terceiro e décimo quarto. Tudo no mesmo prédio? Tudo no mesmo prédio. Agora, funciona as Vara do juiz criminal e o Segundo Tribunal Civil funciona também, no décimo sétimo e décimo oitavo andar. E qual é a sua impressão de trabalhar no meio de juiz, advogado, tudo, como é que é? Eu não sei como é que tem que explicar, viu? Porque tem que trabalhar de paletó e gravata, é uma coisa que eu não gostava. Então, os primeiros dias, então eu vinha de casa de paletó e gravata e eles davam também, o uniforme e era TJ que tinha assim, no... Quando era ascensorista. Como a minha cunhada era bordadeira, então eu tirei aquilo e ela fez, bordou no pano TJ. Então, na hora quando eu chegava no Tribunal, então eu já fui. Depois, eu ir, deixava o paletó, já deixava o sapato, uma camisa com gravata. Ia de esporte ou de chinelo.

Você se arrumava lá? Ah, sim. E vocês ganhavam bem? Não senhora. Não? Ganhava muito pouco. Mas era importante porque chegava no fim do mês, o dinheiro era certo, né? Chega no fim do mês, está ali. E no começo tinha a tesouraria. Era quase que nem fábrica, formava aquela fila para receber o envelope, né? Formava aquela fila na tesouraria, a tesouraria aqui, recebia Fulano de tal, pegava o envelope. Já tinha o que era para descontar alguma coisinha. Descontava porque de Cooperativa porque a gente andava meio... Mais de situação, então comprava alguma coisinha na Cooperativa pra ir levar para casa. Quando era casadinho, novo. Quem era os mais simpáticos, os juizes, os advogados? Quem é? O pessoal que vinha de fora? Antigamente, nessa época todos eles eram amigos da gente. Conversava, brincava. Que nem, quando era festa do dia 8 de dezembro, juiz ia, ia advogado, ia desembargador, todo mundo misturado com funcionário. Não tinha nada doutor Fulano, não tinha nada sobre isso, né?

Então, eles faziam uma lista, cada cartório fazia uma lista que era para ver se arrecadava alguma coisa do advogado que era para comprar. Então, tinha advogado que era da Antarctica, então ele disse: “Bom, eu mando uma quantidade que for preciso da Antarctica”, naquela época. Porque o que era o advogado de umas padarias, “eu mando pão.” E no fim, nós recebia tudo de graça para ir fazer a festa. E o juiz com nós, vinha junto aí, advogado, promotor, desembargador, mas depois, foi indo, foi indo, já eles... Já não conversava mais com a gente. Que nem, a mocidade agora então. Inclusive, tinha uns aí que eu era ascensorista, quando passa perto, eu fico daquele jeito, já cresce o meu peito. Não vai falar nada que se não leva no peito. (risos) Porque teve uma vez que sumiu uma arma. Aí, eu estava trabalhando na sala porque eu trabalhava no corredor e depois, de cinco dias passei para uma sala porque um rapaz foi para encarregado, que limpava a sala.

Então, passei a limpar sala. aí, depois de uns tempos, sumiu um revólver, mas ninguém sabia que tinha sumido esse revólver. Aí, quando a pessoa terminou o processo e veio para retirar o revólver, estava faltando. Não tinha baixa no livro. Então, o escrivão chamou o chefe, o diretor da limpeza, disse: “Sumiu um revólver e todo mundo desse andar tem que ir para o DEIC. Eu disse: “Pelo amor de Deus”. Fazer o que? Ir para o DEIC. O DEIC. O DEIC, lá na Brigadeiro Tobias. Aí, eu fiquei com medo porque eu sabia... Fiquei com medo porque ali, a gente apanhava, né? Aí, eu fiquei com medo. Quando chegou os funcionários, que nós já estava tudo pronto, esperando a perua do lado do Corpo de Bombeiros ali, que era para subir na perua e já para ir fazer... Passar pelo DEIC. Aí, veio o escrivão e fala: “Ah, não precisa não porque o filho do desembargador pegou o revólver e esqueceu de dar baixa.” E não veio pedir desculpa.

E aquilo ficou comigo porque eu sou triste, você sabe? Aí, quando nós passava para o Caixa... Na Caixa Econômica que antigamente dava para dentro do Fórum. E a porta era assim; quando eu via a cara dele, ou eu diminuía o passo, ou se não eu apertava o passo porque eu queria passar na frente dele. Ele que passasse, tentasse passar que eu levaria no peito. Eu era triste. O senhor brigou muito já? Não, só discutia assim. Brigar, não. Se gritava comigo, eu ficava... Desfazer de mim, eu ficava muito bravo. O senhor começou no tribunal em que ano? Em cinqüenta... No fim de 1956, comecinho de 1957. Como é que era o bairro nessa época? Não tinha Bradesco... Aí, nesse lugar que é o Bradesco está... Formando o Bradesco também, era um buraco enorme e tinha só tapume. No Bradesco? É, no Bradesco, na Liberdade ali, no comecinho. Não tinha isso aí. E... E a Praça João Mendes era muito movimentada? A Praça João Mendes, nessa época era muito movimentada.

A Santa Tereza que é a padaria hoje em dia, que era a Santa Tereza, ela não fechava, ficava a noite toda e não tinha problema da gente andar na Liberdade, aqui na rua da Glória... De madrugada, qualquer hora, podia andar, não tinha problema nenhum. Em que momento, o senhor vai trabalhar no Paulistano da Glória? E? No Paulistano? Quando foi que o senhor foi trabalhar lá? Quando eu trabalhava? Em que ano, o senhor começou no Paulistano? Ah, em 1956. Também? 1956... As duas coisas? É, porque eu estava trabalhando no bar fora, aí o patrão, seu Geraldo... Falecido, Geraldo Muraca perguntou quanto eu ganhava. Então, ele pediu, se eu quisesse ir que ele pagaria mais. Eu disse: “Mas, eu não vou sai daqui, agora, né?” Depois de uns quatro dias, aí eu fui trabalhar no Paulistano ganhando mais e trabalhando no Fórum. É, mas o senhor estava trabalhando no bar? Trabalhava no bar, do lado aqui... Onde está aqueles meninos... Um que a senhora foi procurar ele, né? Então, trabalhava ali, depois o patrão, dono do Paulistano perguntou se eu queria...

Devido ao meu jeito... Mas, escuta seu Fernando, o senhor trabalhava no bar que horas? Dos meninos? Das 14:00. Das 14:00 até fechar, que eu saía 13:00. Do Fórum? Do Fórum, eu saía às 13:00. Ficava de plantão... Às 13:00? Eu saía às 13:00, que eu entrava às 6:00, das 6:00 às 13:00. Depois, às 14:00, eu entrava no bar. Aí, quando eu mudei melhorou um pouco. Fui trabalhar no Paulistano, né? Aí, o seu Muraca que convidou o senhor? É, o seu Muraca convidou eu, fui trabalhar. O que o senhor veio fazer no Paulistano? No Paulistano era para trabalhar no balcão de bebida, de refrigerante e cerveja. Conta como é que era a vida no Paulistano? Aquela época, a vida do Paulistano era muito bom porque a pessoa não precisava nem ter... Nem tirar ficha para vim beber, porque era tudo amigo. E era sempre aquelas mesmas pessoas. De terça à quinta, sexta, sábado e domingo, então era sempre aquela pessoa que vinha. Mas, tinha confiança nas pessoas. Eu que tinha porque eu era responsável. Sempre as mesmas pessoas que compram?

Os freqüentadores. Ah, tá, tá. Eram os mesmos? Sempre os freqüentadores eram os mesmos. E o Paulistano nessa época, o que ele era? Era uma casa de show... Ah, tinha muito show. É... Tinha escola de samba? Era... Paulistano da Glória, né? Depois, porque era Paulistano da Glória porque era escola de samba da Glória... Paulistano da Glória, a escola, né? Aí, tinha muito show de sábado, de quinta-feira, vinha muitos artistas aí. Tipo quem, mais ou menos? Inclusive, está aí as fotografias, eu não marquei o nome e tem umas pessoas que eu estava mostrando lá no bar. Aquele que eu mais lembro é o Newton Estrada, né? O Newton Estrada era o... Ele ia cantar lá. Ia cantar, fazer show. Mas, antes de fazer show, começava a jogar palitinho para ver quem pagava o conhaque. Ele falava que ele estava com um pouco de pigarro, então era para pagar o conhaque. Então, nós jogava, antes dele fazer o show, nós jogava lá uma cinco, seis vezes palitinho. Se ele perdia, ele pagava, se eu perdia, eu pagava. Nós tomava bastante conhaque. (risos) .

Aí, quando eu perdia, ficava ruim porque quando ele estava cantando, que ele já estava de saída para cá, porque ele tinha que largar o microfone e já correr. Aí, então ele falava: “Seu Fernando, lá do bar está fazendo aniversário e a festa é por conta dele.” Quando, vinha aquele, abria porta, fechava porta e saía para o meio do salão também. Mas, só para contar a história, Paulistano em 1956, ele tinha um cordão que saía no carnaval? Tinha, sim senhora. Como é que chamava o cordão? Paulistano da Glória. É, Paulistano da Glória, cordão Paulistano da Glória. Como é que era, o senhor lembra como é que saía? No começo tinha muita baiana. Essas pessoas de idade, as baiana, depois tinha a comissão de frente e tinha os músicos todos que tocava. Tinha bastante gente. Isso aí, era no carnaval? No carnaval. Na rua? Na rua. Formava... Fechava ali e então formava aquele cordão. Depois, aqui em baixo do viaduto que ficava os ônibus, então descia tudo a pé aqui e aí, subia no ônibus para ir na avenida São João naquela época para desfilar. Antigamente, era na avenida São João. Desfilava mesmo? Desfilava. Mas, não era muito grande.

Era um cordão pequeno? Não, era grande. Era grande? Tinha mais de umas 200 pessoas. E como é que eram as alas? Tinha ala também? Tinha diversas alas, mas agora assim, eu também não lembro. Tinha diversas alas. Mas, esse foi o cordão, depois veio a escola de samba? Depois, veio a escola de samba. Aí, que tinha a ala das baianas? Aqui que tinha a... E antes de virar escola de samba, quando era só cordão, como era? Cordão, era mais pessoa de idade também. Formava aquela moçada e as pessoas de idade e os senhores assim, que nem grandão era para ser a comissão de frente. Então, como eu gostava muito de roupa branca e gosto, graças à Deus. Então, só ia para tirar medida, mas eu não saía porque tinha vergonha. Então, eu tirava a medida para pegar a sandália, o sapato, a camisa, a calça. Aí, assinava ali o recebimento. Aí, eu saía... Como eu sabia que eles vinham para cá, então eu ia tomar cerveja até aquele horário que saía, né? Aí, eu pegava e vinha. “Mas, você não foi desfilar?” “Perdi a hora.” E assim, eu estava sempre perdendo a hora, esperando eles saírem. Você não queria sair? Não... Eu não tenho jeito para desfilar.

Só depois... Ser franco, depois que eu bebesse umas três, talvez eu podia desfilar. Umas três, né? (risos) Antigamente, nós tratava tomar umas três Penha-Lapa, que era grande, né? A caipira... Cerveja? Não, a caipira. Chamava Penha-Lapa? (risos) Chamava Penha-Lapa. Então, hoje em dia, nós trata Jabaquara-Tucuruvi porque aí o metrô do tamanho do copo, né? Que é a linha norte-sul. É. Do metrô. Agora é. Jabaquara já foi para... Porque o metrô é o tipo do copo. Copão. Copo grande. Ai, que bacana. Aí, eu falava: “Se eu tomasse assim, umas três Penha-Lapa dava para sair. Mas, eu não tomava porque eu tinha que trabalhar. Eu tomava, mas não tinha vontade também, de sair não. O seu Fernando, agora o pessoal chega no bar e pede um Jabaquara-Tucuruvi? Eu peço. Assim mesmo? É. “Dá um Jabaquara... Vem coada e uma pedrinha de gelo, aí já vinha um... Aí, nós fala: “Dá um aí, para firmar.” Aí, já dava um naqueles copão americano, também uma espremida já cheio com uma pedrinha de gelo. Isso é para firmar.

Se tiver firme, então já pede uma Jabaquara-Tucuruvi. Mas, por que o senhor fazia lá dentro? No que o senhor trabalhava tanto? No Paulistano? Eu trabalhava no bar de bebida. Depois, na hora que os artistas terminava de cantar, eu já estava bem alegre. Então, as moças vinham, que vinham em cima. Então, eu pegava na mão dele assim e saía correndo. Porque elas não estavam esperando. Porque chegava bem na porta assim, então ele largava o microfone na mão de outro. Então, a gente... Tirava ele de lá? Tirava ele de lá por causa das mulher porque as moças também agarravam e ficava tudo em cima, beijava, apertava. E eles ficavam um pouco com medo naquela época, né? Mesmo assim... Mas, o senhor lembra... o Geraldo Filme o senhor conheceu? Conheci. Conta do Geraldo Filme. O Geraldo Filme, conheci ele no Paulistano que foi sambista, tudo e ele gostava de fazer um abatimento porque ele era muito conhecido no Paulistano, dos patrão. Então, ele trazia a turma da faculdade e pagava meia para poder entrar. Pagava meia, depois entrava...

Quando era aniversário que era sexta e sábado. Na sexta, então quando tinha aniversário vinha um e falava: “Deixa dez mesas para mim.” Então, aquelas dez mesas, eu falava para o garçom. E aí, eles vinham aí, um pagava meia e os dez, quinze que chegasse com o aniversariante não pagava. Ganhava aquilo ali como brinde. Depois, ele falava, dava ordem: “O que a mesa pedir, pode deixar que depois eu pago.” O Geraldo fazia isso? É, o Geraldo e o aniversariante, né? Mas, que faculdade, ele não fazia faculdade? Não, não. Ele estava na faculdade... De que? Não, ele ficava ali por causa dos estudantes, né? De direito? De direito, no Largo São Francisco. Eram amigos? É. Porque quando tinha festa, ele que levava o conjunto para tocar lá quando tinha alguma festa, um aniversariante, que fazia uma despedida quando se formava. Ele que levava, então ele pegou muito conhecimento com as pessoas.

Ele não se apresentava? Ele não cantava? Cantava. Cantava. Tem um samba que... É da Bela Vista que ele canta até hoje... Canta até hoje... ele faleceu. Ele cantava na Bela Vista no cordão... Que música, o senhor lembra? Ah... Sabe cantar? Eu? Não, senhora. Não. Aquela do Bexiga que ele... Aquela do Bexiga. “Quem nunca viu o samba...” É, “quem nunca viu o samba amanhecer, vai para o Bexiga para ver.” E ficava mesmo por lá, chegando ali 6:00, tava que tava pegando no bréu. E a italianada gostava também, naquela época. Agora, depois de uns tempos que veio umas pessoas de idade já... Junto com o Geraldo, tinham outros sambistas que vinham que o senhor lembra? Lembro. Quem que o senhor lembra assim? Batista de Souza que morava aqui na Liberdade, na rua da Glória, aqui em baixo. Vinha, também cantava aí, dava aquelas canchas, né? Tanto um como outro. E quando veio para cantar...

Um que é falecido que esteve preso? Um cantor... Esqueço o nome dele e ele cantava... Dava com os microfones para o Batista de Souza, que o Batista de Souza que sentava ali. Também cantava e começava a chorar por causa das músicas, tudo. Era umas músicas que cantava antigamente e machucava porque você entendia e dava para você ouvir, né? Era interessante. Era um cantor? É, era um cantor... Antigo esse cantor? Antigo, que foi preso com droga... Ele morreu a pouco tempo. Baden Powel? Como? Baden Powel? Não, não. Simonal? Não, não. Também não. Esse era branco, magro... Raul Seixas? Também não. (risos) Cantava muito bolero. Bolero? É. Mas... Tinha muita gente famosa na casa? Ia, porque naquela época ia. Que na época, tinha que ir de paletó e gravata, né? E o sapato... tinha dois engraxates na porta que era para... E eu alugava gravata porque, às vezes, a pessoa vinha, né? Sem gravata, então eu alugava gravata. Era uma mixaria.

Como eu não cobrava nem... Assim, um para devolver. Deixava pra lá, porque se devolver, está bom. Aí, devolvia se não esquecia, embora para casa. No dia seguinte, trazia para o próximo baile... Mas, os dois vinham assim, todo dia ou em festas que o Paulistano dava? Não, tem outros freqüentadores, muitos advogados que sabiam que eu era ascensorista e sabia que freqüentava aí. Então, eu falava: “Esses aí, quando chegar não precisa pagar.” Porque tem pessoa que não gosta de pagar porque o que ele gasta lá dentro, ele gasta muito mais. Então, entrava já ali... Já pagava uma cerveja para mim e ficava conversando, “vamos tomar uma cerveja.” Depois, virava para o whisky. Eles queriam mais era cerveja e eu fazia também, a minha caipira também, do lado do balcão assim.

Ou se não, pedia para esses meninos que estão hoje em dia. Ele fazia a caipira lá, batia dois litros de pinga no liqüidificador, coava, dava para mim, então levava para... Os meninos do bar ali? É, do bar ali, agora. Esses que estão aí. Como é que chama aquele bar? Eu não tenho lembrança, a senhora sabe? Mas, me diga uma coisa, não tinha seguranças dentro do Paulistano? Não, naquela época não precisava. Não tinha briga? Não, só tinha... Tinha, do tempo da guarda civil que era obrigado. Tinha dois guardas civil, mas era tudo amigo, tanto os guarda civil... E a freqüência também, não tinha briga. E nem tinha baixaria? Não, não. Não tinha também. E as mulheres, eram... Bom elas também, queriam mostrar bem a roupa dela porque era mais empregada doméstica, então elas vinham tudo... Quando era sábado e sexta-feira, e domingo vinha tudo impecável, né? Não eram garotas de programa? Não, não. Não, senhora.

Agora, dentro de... Chamava de uma gafieira, o nome da época? Tinha, era de terça-feira, era gafieira... Gafieira era em um dia só? Era em um dia por semana. O que tocava na gafieira? Era mais assim, mais samba, né? Esse samba mesmo... Eu não sei como é que se diz isso, esse tipo de samba? Era um samba mesmo, que era para dançar. E era sapato bico fino, bem engraxado, jogava parafina no chão... Para não escorregar? Não, para escorregar. Para escorregar? Parafina, fubá, vela quando não tinha mais parafina... O zelador esquecia, então pegava um maço de vela e passava e formava uma porção de vela ralada e jogava assim. Então, ficava... Era um conjunto que tocava? Sempre o mesmo? É... O músico mesmo que ficou lá, ficou, eu acho que uns 20 anos, ou mais. No conjunto? No conjunto. Depois, mudou. Aí, ele morreu, ficou para outro, mas tinha esses conjuntos de pagode também, né? Mas, o conjunto ficou lá muitos anos. Até agora, ele... Antes de terminar, o conjunto estava... Você lembra o nome do conjunto? Era "Ben e o seu Conjunto".

Era o dono do conjunto, era... Esse que ficou bastante tempo? É, esse que ficou bastante tempo. Esse de agora, que era Ben e o seu Conjunto, que ficou mais do que o primeiro porque o primeiro já era antigo, né? Ficou, eu acho uns 30 anos, depois esse aí também... Agora, quando não era o dia da gafieira... Gafieira era na terça? Terça-feira. Qual era a diferença entre o dia da gafieira e outro dia que não era gafieira? Qual o dia que era melhor? Não. Qual é a diferença? A música... As músicas eram mais selecionadas, né? Na quinta-feira, sexta-feira... Bolero. É, bolero. E na sexta-feira também, já corria um pouco de gafieira também , né? Corria? É, porque o pessoal gostava. Depois, naquela época, o lencinho na mão também. Porque o meu patrão não deixava dançar sem o lenço para pôr nas costas da moça, assim da dama. Se não tivesse lenço, ele... Punha no ombro? Ele dizia que não? Não, que não podia. Já sabia a regra da casa, né? O que mais era regra da casa? Era de paletó e gravata, sapato e de lencinho...

Lenço, para poder dançar com a dama. Então, não podia dar tábua, né? Não, não. Porque dá tábua, aí podia ficar até pior, né? O que acontecia? Brigava, né? Todo mundo brigava, ou se não largava. Vinha chamar um dos diretores do dono da casa para chamar a moça a atenção e a moça, então ficava, às vezes, até suspensa, né? Uns dois bailes. Mas, era o que? Era um sistema de sócios, uma sociedade? Eram três sócios. Não, quem ia tantas vezes lá... Não, não. Paga ingresso. Agora, os sócios que a gente saía na escola de samba, como não tinha carteirinha, que nem eu tenho, né? Sr Fernando mostrando a carteirinha). Olha Então, pagava meia, ou se não nem pagava naquela época. Entrava... Não tinha aquela coisa dos estatutos da gafieira? Não pode dar umbigada, não tinha umas coisas assim? Não, não tinha isso não. O senhor é sócio-fundador.

Oh, que beleza. O senhor conhece todo esse tempo da fundação? No começo, né? Como é que foi isso? Vocês juntaram, conversaram? Foram fazer... Precisava de bastante sócio porque era para fazer inscrição na... Na Liga? É, na Liga. Então, aí entrei como sócio, mas funcionário também entrou como sócio-funcionário... Ele pagou também, entraram como sócio porque não pagava nada. Então, foi assim. Quem foram realmente, junto com o senhor, os fundadores do Paulistano? Um fala que um, outro que é outro... É... O Bituxa, Muraca, Juca... Agora, eu não lembro o sobrenome dele. Depois, Geraldo também, o Muraca. Eram três sócios. E esse último, Geraldo Muraca era sócio de três salão. Era desse aqui, do Milas e do Metropolitano que é na avenida Jabaquara, na estação Saúde. Falando do Milas, como é que era esse? Onde era? O Milas foi um baile muito bom que freqüentava mais era as pessoa brancas, né? Não freqüentava muito as pessoas de côr. E o de côr, quando freqüentava também, ia bem vestido. Não era que ...

Era regulado, né? Estando bem vestido, entrava porque as pessoas que estava ali, era seu Fulano, seu Ciclano, Beltrano. Depois, de domingo que ficava bom a matinê porque ia muitas portuguesas que trabalhava na feira no sábado e no domingo de manhã. Como na segunda-feira era folga, então no domingo ficava assim, o movimento. Ai que delícia. Eu trabalhava também, lá no balcão porque, às vezes, eu ficava nervoso nesse salão aqui, para ele não me mandar embora, para não deixar sair, ele me mandava ficar um ano, dois anos. Aí, eu ficava nervoso, eles me mandavam para cá. Depois, ele mandava ir lá para tomar conta do salão. Ele que tomava conta de quinta, sexta, sábado e domingo. De qual? De qual? Do Metropolitano. Aí, depois na terça-feira, ele ia para lá para fazer a conta... Eu como trabalhava no Fórum, saía às 13:00, eu ia para lá para fazer a conta porque eu não sei escrever direito, mas via a conta... Na hora que o outro sócio dele, dava aqueles ingressos para poder vender...

O troco, né? Eu via ali para marcar e eu fazia um sinalzinho. O troco que foi, depois quando recolhia... Logo que recolhia também, eu ia lá junto, fazia... Conferia lá com ele, depois fazia uma assinatura. Depois, batia; “estava certo”, “estava certo”. Quer dizer, o senhor trabalhava em três casas, né? Eu trabalhei nas três casas... Paulistano, Milas, e no... Metropolitano. Esse Milas, onde é que ficava? Ficava na rua Alberto Simas, ali atrás da Caixa Econômica, na Clóvis Bevilacqua. Não existe mais? Senhora? Não existe mais? Não, não senhora. Também, porque já fechou porque foi morrendo os sócios, né? Aí, o último que ficou... Ficou muito ruim, morreu. Depois, o outro também, perdeu a vista, ainda está vivo até agora. Foi vendendo porque tinha... Tinha as filhas, mas eram de menor, ele disse: “Então, ou entrego a minha parte porque eu não estou enxergando para não passar nervoso.” Como é que era esse salão Milas? O Milas era... Era no andar de cima que tinha o saguão, depois subia uma escada... Era no andar de cima. Eles tocavam outro tipo de música?

Ah, aquelas músicas já eram mais diferente do Paulistano da Glória, né? Era um outro tipo de música. Agora, o Paulistano era samba mesmo? Samba. Paulistano sempre foi samba. O que mais tinha de regra no Paulistano? Por exemplo: engraxar sapato, gravata, lenço na mão, não podia dar tábua e o que mais? Quando ia pagar, já estava ventando que ficava assim, os dois ali... O patrão e o outro que recebia... Que era para dar porte de arma, para revistar, então ele falava: “Não pode entrar. Deixa para amanhã que é melhor.” Agora... Porque se ele ficasse bravo... “É, mas não estou sujo, estou com sapato limpo, minha camisa está limpa.” Aí, então começava a insistir, “mas você está um pouquinho quente e você sabe que não pode entrar quente.” Aí, conversava, conversava com ele, ele ia embora, ou ficava ali no bar, ou senão ficava no bar de cima. Depois, ia embora e no dia seguinte, ele vinha direitinho.

Aí, o patrão até deixava ele entrar sem pagar. E também, ia melhorando, não chegava mais de fogo. Tinha uma educação. É, educação. A gente explicava que não podia era o pessoal ficar, mas explicava para a pessoa... Quem eram essas pessoas que ficavam na porta, tomando conta até da educação? É que explicava, né? Tanto o patrão e o outro que ia dar porte de arma. O patrão recebia os ingresso, cortava e jogava na urna, aí o outro era só para revistar. Então, quando chegava uma pessoa para comprar ingresso que estava meio quente, aí, o patrão falava: “Vai lá avisar ele, fala que não pode entrar.” Esse patrão, quem era mesmo? Era o que ficava mais na porta... Era o seu Bituxa e um pouco também, Depois, era o seu Juca, era o patrício. Como é que o Paulistano se dava com o pessoal do bairro? Como é que era a relação deles com o bairro? Era muito boa. Como assim? De conversar, de cumprimentar e não tinha de vizinhança porque tinha umas moradias mesmo, não tinha ninguém assim, que vinha reclamar...

Ah, só teve uma época que reclamou um delegado da Praça da Liberdade, veio reclamar aí. Daqueles delegados coroa mesmo, enjoado. Que pôs o pijama e o paletó preto e chamou a polícia para vim com ele e mostrar como fazia barulho. Aí, levaram um dos patrão até o apartamento dele que é o prédio para ver como é que saía o som e dava o mesmo som. Aí, mandaram fazer uma reforma enorme, aí não saía mais o som para fora. Mas, as casas que tinham na rua da Glória não reclamava? Não, ninguém reclamava. Só houve essa reclamação, mas foi de um delegado... também da... Do prédio... Dos inquilinos do prédio, né? Eu acho que falava para ele. Era o único delegado que, naquela época, esse delegado, doutor Cobra era triste, então reclamava para ele. Então, depois ele veio aí. Pôs aquele... De pijama, de chinelo e de capote, então deve ser alguma coisa importante. (risos) E o trânsito, como é que ficava com tanto carro de madrugada? O trânsito não atrapalhava e tinha trânsito a noite toda e tinha bastante carro de praça, era amigo.

Às vezes, ele entrava para tomar uma cerveja lá dentro... Preferia entrar, tomar uma cerveja, duas cervejas. Deixava o carro lá para esperar a vez dele. Quando ia entrar no salão, então deixava para ele tomar uma cerveja lá porque via que ele estava a serviço que ele não ia dançar. Só para ver mesmo... Já tratava das pessoas assim: “Cai fora, se quiser depois aí, desce, me avisa.” Aí, vinha antes de terminar o baile para ver se ele já estava de saída, “se você sair antes do baile, você sai e volta porque eu vou aguardar.” Então, nós ficava na porta, as pessoas que esperava... Porque você estava para arrumar o motorista conhecido para levar. Está certo, que não tinha tanto Passat como tem hoje, mas procurava uma pessoa amiga, conhecida. Não tinha assalto? Não, graças à Deus não... Era difícil? Era difícil. Dava para andar, por exemplo: você saía tarde desse serviço... Saía. Podia andar aqui na Liberdade que não tinha problema. Subia que eu pegava... Descia na Conselheiro Furtado, o meu ônibus... Nós trata ele de negreiro, né?

Ele subia ali para depois subir para a Liberdade, então eu pegava... Negreiro? Negreiro que é da madrugada. Nós trata ele quando negreiro, né? Por que negreiro? Porque é o que funciona só a noite, né? Esse ônibus é o negreiro que nós trata. Hoje, não existe de Santana... Depois que termina ônibus... O metrô Santana, aí saía de lá 00:00 e vem catando... Depois, o ônibus fica rodando até às 4:00 e faz o caminho que faz o metrô. Ele faz o caminho por cima, como faz o metrô. Mas, olha, você já botou o metrô na história? Mas, e antes do metrô? O que? O Paulistano... Quando que fechou? Ah, o Paulistano fechou agora... Há quanto tempo? Uns dois anos, mais ou menos? Ah, tá. Dois anos, fechou de uma vez mesmo, que a pessoa não estava agüentando, ele estava com muita conta, né? Porque a senhora sabe, a gente que tem uma certa idade, passar uma responsabilidade para os filhos não é que nem a gente que... Sabe? Porque a moça que tomou conta era nova e era só querendo se embelezar.

E o dinheiro que entrava, não era para pagar... As contas. As contas. Foi indo, foi indo... Mas ela o que? Ela comprou o Paulistano? Não, era do falecido do pai dela. Porque como o pai faleceu, então ficou para ela. Aí, quando viu que ela também queria assim. Então, quando o sócio que ela ficou sócio com o pai dela, viu que ele era desse jeito. Então, disse: “Não quero nada de você.” Passou tudo para ela. “Não quero dinheiro, não quero nada.” Passou, então cresceu, né? Cresceu, aí foi gastando dinheiro, gastando dinheiro, depois não tinha... Como é o nome dela? Iii, agora no momento, eu não lembro, a senhora sabe? E agora, aquela garagem que está lá, o que é? Alguém comprou o Paulistano para fazer a garagem? Não, não. Parece que é alugada a garagem. E o terreno ainda é dessa moça? Não, não. O terreno é de uma senhora de um casal já de idoso. Não cheguei a conhecer, mas eu fiquei sabendo... É dessa senhora? Mas, era de um casal que era o dono. Então, ela não pôde pagar o que devia também, das prestações, aluguel do prédio, então, ela foi despejada. Agora, me diz uma coisa, o senhor trabalhava no fórum?

Trabalhava no fórum. Depois, a noite no Paulistano. E o senhor dormia que horas? Às 4:00. Eu estava acostumado. Vai indo, vai indo, depois tinha horas que eu chorava de manhã, né? Quando eu sentava na cama para calçar, por a meia e calçar o sapato, eu ficava assim, né? E chorando. Disse: “Até quando eu vou viver essa vida?” Mas, eu estava precisando. Então, tinha que fazer essa vida muitos anos. Você saia às 4:00 do Paulistano, ia para a casa no Jabaquara... Para o Jabaquara... Chegava às 6:00? Não, não, 4:30, 4:45. E dormia uma hora? Uma hora, menos às vezes, mas estava já acostumado. Mas, quando aí, no começo é que foi triste. E de tarde, como é que era? De tarde? É. Você ia dormir uma hora, aí vinha para trabalhar no coiso e a tarde, o que é que você fazia? Ah, eu ficava no estacionamento que tem em frente ali jogando palitinho, comendo churrasco porque... Porque a gente fazendo, eu fazendo movimento eu não sinto canseira.

Eu sinto canseira se eu ficar parado. E a gente parado cansa muito mais também, né? Eu andando para lá e para cá, então, eu vinha, ficava jogando palitinho até uma certa hora. Depois, tinha um advogado, um japonês também, que morava no meu lado, quando era 22:00, ele falava: “Chega Fernando, vamos embora?” “Vamos embora”. Então, ficava até esperando também já essas duas caronas, que levava até a porta de casa. Escuta, antes do metrô e depois do metrô, da construção do metrô, que mudanças teve no bairro? Você sabe me dizer? O que você sentiu de diferença? Ou durante a construção do metrô... Bom, durante a construção do metrô foi um pouquinho difícil para o bairro porque aí começou encher com muito tapume e tinha que passar em lugar estreito assim. E naquele tempo ainda não era tão perigoso também passar no meio do tapume e entre a parede, que dava para passar. Mas, foi indo, foi indo, depois, aí, já não dava mais para passar também que já estava havendo...

Quando formou aqui a Praça da Sé. Aí, já era um perigo... Por que, qual era o perigo? Por causa de ladrão, né? Aí, já começou ladrão. Ah, começou ladrão É. Por causa que ficou escuro e aquele tapume enorme para tampar aquela estação ali embaixo. Da Liberdade? Não, da Praça da Sé, em frente a Catedral. Ah, tá. E quando foi aqui na Liberdade? Na Liberdade também era tapume. Era um buraco enorme e era tapume porque punha um tapume perto da calçada, depois entrava assim beirando a parede, a gente passava. Mas, naquele tempo, não tinha tanto ladrão como tem hoje porque se encontrar no caminho... Porque hoje em dia... Antigamente dava, né? “Pode passar o senhor; não, pode passar a senhora”. Pronto. Mas, agora, encontrar... Se você vai andando em um trilho, assim na rua mesmo, de madrugada, você vê uma pessoa, você não sabe se você volta ou se continua. Você volta, olha para traz, vem vindo outra pessoa, pronto, êta, meu Deus do céu, mas dá aquela friagem na barriga de medo, né?

É. Então, aí a noite já foi mudando, né? Foi, a noite já foi mudando. Foi por causa do metrô que foi mudando? Foi também. Por causa que teve lugar que era muito estreito para poder passar, né? Aí, começou a ficar perigoso? Aí ficou perigoso. O metrô matou o samba da noite, então? Não, não matou porque descia na Praça João Mendes... Aí era o ponto de referência porque era o bonde, tinha o bonde que vinha aí, depois o bonde ali no... Ali perto do Mappin, que vinha da Vila Madalena também. O bonde vinha até ali. Depois, a turma podia passar, que é na Rua Direita, antigamente, que era só para as pessoas de cor a Rua Direita. Formava aquele paredão assim para as moças passar na frente e tudo. Na Rua Direita? Na Rua Direita. Antigamente... Que ano isso? Isso aí também, acho que uns 30 anos atrás, viu? Ah, mas era de pessoa de cor, era para fazer passeio? Era. Depois, tinha aqui também na Praça da Liberdade, aqui onde que tem os engraxates, que aí também nós tratava a conta da praia porque aí onde que ia ter festa na sexta encontrava todo mundo aí.

Depois, no sábado, quem podia vim a matinê, de manhã, depois que saía do serviço, 13:00, 14:00, então encontrava assim para ver onde que tinha festa. Depois, na segunda-feira, ficava assim na Liberdade que era para saber o que aconteceu nas festas, como foi, se a festa era boa. Aquelas festas americanas, né? As moças levavam um pratinho e os moços pagavam ingresso, né? Naquela época era bom. O senhor falou qualquer coisa dos engraxates. Engraxates de que praça? Aqui da Praça da Liberdade mesmo. Subindo assim... Subindo a Rua da Glória, ao lado esquerdo tem uns engraxates. Ali, que tem aquela lanchonete enorme ali na esquina. O senhor diria que a Liberdade era um bairro boêmio, antes do metrô? Era, era. Porque tinha muita lanchonete por ali, a gente freqüentava tudo, que nem aquele restaurante que tem... Terraço Itália. Era antigo ali, né? Antigamente, o movimento era no Terraço Itália que ainda era mais em conta. Mas, foi indo, foi indo, a pessoa mais ou menos não está podendo entrar lá porque eles enfiam a faca. Interessante isso É. Aquele pessoal do Paulistano sumiu, ninguém mais viu? Sumiu. Quem está mais aí é só eu. É? Só eu que veio; não veio mais ninguém.

Às vezes encontro, assim, pelo centro da cidade ou no bairro, às vezes encontro quando vou para algum bar lá no centro, você ainda encontra algum assim, mas está difícil de encontrar uma daquelas pessoas antiga aí. E depois que terminaram de fazer o metrô e ficou tudo arrumadinho, como foi que mudou o bairro? Melhorou, piorou? Ah, melhorou. Mas, porque aí descia tudo na Liberdade, vinha o pessoal de longe de metrô, então descia na Liberdade. Então, descia aquele bando de gente, aquela porção de gente que já vinha para o Paulistano porque antigamente, no começo aí, formava aquela fila para poder comprar ingresso. Ah, é? É, formava aquela fila. E terça-feira de carnaval, a fila ia até lá em cima, passava do bar da onde que eu estava, ali. Virava a esquina lá baile de terça-feira, tanto a matinê como a noite. Ficava enorme. Então, aí como punha duas caixas, então, ficava uma fila para lá, uma fila para cá e a fila também descia aqui para a Rua da Glória que vinha quase até aqui em baixo.

Que eu punha duas caixas para receber que era para ir mais depressa. Que tipo de gente freqüentava o Paulistano? Como é que eram as pessoas? Eram umas pessoas... Era mais pessoa de cor e simples, né? Quando vinha do interior, primeiro salão que vinha era o Paulistano da Glória porque por intermédio conhecia um dos colegas aqui que freqüentavam... “Onde que tem um bailinho assim para a gente passar umas horas agradável a noite, assim?” Então, era o Paulistano da Glória. E aí foi indo, foi indo e melhorou. Não tinha também uma dupla de jornalistas que freqüentavam? Não. Nas sextas-feiras? Na sexta-feira sim por causa que era cliente da faculdade que tinha também formandos jornalistas que vinham também para conversar, fazer entrevista com alguma pessoa sobre salão, baile. O senhor lembra a primeira vez que o senhor andou de metrô? Não tenho lembrança não, viu? O que o senhor sentiu... Posso Ter sentido que ainda, às vezes, eu sinto, conforme eu vou pegar, sinto uma friagem assim na barriga. Pode ser, acho, “você já vem vindo há muito tempo junto comigo”, né? (risos) O senhor tem medo do metrô? Não, não é medo, mas parece que dá uma coisa. E quando o metrô também...

A gente está dentro do metrô e dá aquele breque a gente assusta porque tem horas que ele dá um breque, se a senhora não estiver segura avança em cima da outra pessoa do lado. Aí, dá medo quando ele pára muito tempo assim na parede. Já aconteceu uma vez comigo, mas estava cheio. Tinha umas 30 pessoas no vagão, então, para não desesperar eu disse “calma que nós parou na parede” e aquela fumaça. E teve uma senhora que ficou com medo. Então, eu abri a porta, forcei a borracha: “Mas, não estou agüentando, não estou agüentando porque...”, aquela correria, mas era o terceiro vagão como quem vem do bairro para a cidade e estava vindo todos dos seis vagão da frente, e correndo para trás. Pelo túnel? Pelo túnel. A lateral ali, pelo túnel. E a gente passava a mão para segurar aquilo no ferro, você tinha que ver como que você ficava. Mas aqui, assim, ficava aquela poeira assim, que formou a sujeira e uma sujeira preta. Mas ficou...

Deu o que fazer para sair da mão. Aí, porque ficaram com medo, começaram a gritar, gritar, disse: “Também não vou dar uma de herói porque também estou com medo, mas não quero mostrar porque todo mundo fica com medo, mostra, torna-se pior”. Então, eu dei uma batidinha ali na caixinha, puxei o ferrinho, prendi embaixo, a porta... porque o pessoal vinha correndo, passava na gente assim batendo, e a gente batia no vagão e voltava... E conseguia sair. Para subir aquilo para a Liberdade afora até esvaziar. Aí depois veio, desencostou... Aí botou ele na Estação Ana Rosa que ali que tem um para desembocar assim quando acontece qualquer coisa assim na linha. Aí, o vagão vai recolhido para lá. Nossa, que chato, né? Só estando dentro para ver o medo. (risos)

Mas, foi a única vez? Foi a única vez que aconteceu comigo... Não, duas vez. Uma vez, a mãe deixou o menino entrar, e o menino pôs a mão para fora e a mãe ficou. E a criança gritando não estava apitando... Mas, como ficou gritando, então, para não ir muito distante o metrô eu também quebrei, puxei, aí o guarda veio, os seguranças já veio correndo, falou “o que foi que aconteceu?”. “O menino ficou com a mão para fora, então, ele gritando, gritando, não sei se estava apertando ou se já tinha passado na parede as mão dele e a mãe ficou na Estação Conceição”... Aonde? Largo Ana Rosa. Aí, então, eles já comunicaram para lá que já tinham pegado o menino, que não tinha problema, o que aconteceu porque a mulher também desesperou. Mas, foi a mãe que foi culpada porque tem que segurar. Eu seguro meus netos até hoje com 19 anos e a minha neta com 10.

Seguro na mão e ponho na frente porque se empurrarem eu nós vai junto, nós dois que entra mais depressa. Mas, tem pessoa que não tem noção, deixa a criança entrar e fica brincando. Quando fica brincando assim na plataforma e, às vezes, a pessoa lá de cima está vendo, começa a recomendar. Mas, a mãe não está nem aí. Então, eu viro as costas porque, às vezes, a criança chega até a passar a faixa amarela e olha assim para ver se está vendo. Aí, eu viro as costas, digo: “Bom, eu não quero passar nervoso”. Porque a mãe que é a mãe ou o pai que é o pai não está nem aí, né? Seu Fernando, assim, aqui na Liberdade o que o senhor mais gosta aqui do bairro? Eu trabalhei em uma lanchonete pegado a Igreja dos Enforcados muito tempo também. Depois trabalhava no salão, no Metropolitano, então, freqüentava dia e noite, ficava sempre na Liberdade aqui. A casa de vela Santa Rita que tem uns colegas daquela época também, de uns 25 anos atrás, 30...

Que trabalham lá? Trabalham na... São três sócios que eram dessa época mesmo, 30 anos atrás, que já na época conhecia. Então, quando não tem o que fazer, então, eu vou lá na casa de vela, fico conversando com eles, depois eu falo: “Vamos tomar um café?” Então, sai e vamos tomar café que é um meio de sair dalí. Depois, então, quando chegar ali cada um toma o que quiser, né? (risos) Bom, seu Fernando, deixa eu perguntar uma coisa assim: o senhor sabe por que aqui chama Liberdade? Não. O senhor tem alguma idéia? Não tenho. E da Igreja dos Enforcados? Porque disse que da Igreja dos Enforcados porque parece que foi enforcado uma pessoa por isso que puseram o nome dessa igreja. Mas, não tem bem afirmativa não. O senhor trabalhou lá perto? Como é que é o movimento lá nos Enforcados, na igreja? Ah, de segunda-feira era um movimento enorme. Até hoje mesmo de segunda-feira, quando é a primeira segunda-feira do mês ou a última segunda-feira do mês que aí, então , vem bastante gente para acender cela, para fazer a sua prece. Não, mas espera aí que são duas igrejas...

Não, falei essa daí da Liberdade, depois a outra é lá em baixo. Embaixo? É. Aquela também tinha pessoas que também acendia muitas velas ali embaixo. Que a das Almas que é aqui. É, a das Almas é aqui, na Liberdade. E a dos Enforcados é lá embaixo. A dos Enforcados é lá embaixo. E o senhor conhece alguma história interessante de gente que vinha acender vela? Não, não tenho não. Nem em uma, nem em outra? Não. E como é que é a sua convivência com os orientais aqui do bairro? Ah, são muito pouco, viu? Não convive. Não, não tenho convivência não. É porque dois ou três que é daquele tempo também do Paulistano da Glória que eles entravam nisso, não ficavam ali como eu tinha falado, ficava em frente ao meu estacionamento jogando palitinho. Então, era dois, três... Mas, japonês ia para o Paulistano da Glória? Entrava. Muitos? Muitos. Porque naquela época... Tinha uns que saia na escola de samba também, muitos japonês. Depois, foram também quando fundou lá o Maloca da Zona Sul. Mas, a maioria de lá mais era japonês; japonês, japonesa, tudo que saia na escola de samba lá. E a comunidade negra aqui é muito grande? A comunidade, pelo que eu vejo, parece que sim.

E já era grande? Não, não era não. De um tempo para cá é que parece que está crescendo. É? É. O senhor conhece as pessoas? Conheço aí uma meia dúzia de pessoas, mas não convivo com eles. Conheço porque às vezes eu vejo eles em um debate ou se não pelo jornal, né? Conheço, mas não convivi com eles. A gente ia acabando agora. (risos) Se o senhor pudesse escolher, para onde o senhor queria que tivesse metrô? Não entendi. Tem muito lugar em São Paulo que ainda não tem metrô, né? Aonde o senhor acha que deveria Ter, devia de chegar metrô? Que nem, para o lado de Santo Amaro. Santo Amaro e outro lugar. Esticasse também o da Vila Madalena porque a gente como conhece um pouco mais para lá da Vila Madalena até onde que vai o metrô... Então, esticando. Que nem o do Corinthians também que esticasse até São Miguel porque a minha irmã mora para lá. Então, de vez em quando eu vou e desço no Tatuapé, aí eu pego o ônibus para depois continuar, ir embora para São Miguel.

E é uma hora dali... Do Tatuapé até São Miguel; pega a Garagem Grande. Uma hora de ônibus. Nossa Agora, se esticasse o metrô já ia mais rápido. Ficava rapidinho. Seu Fernando, pessoalmente, qual é o senho que o senhor gostaria de realizar? Ter um barzinho para mim tocar. O senhor mesmo? Para mim mesmo. Porque como eu conheço, eu até ficaria tão contente se eu passasse a escritura ou fosse arrendar o barzinho e ficasse tão contente que se eu caísse duro assim, dentro do que era meu, eu ia sossegado ou para o céu ou para a terra. Mas, a minha vontade... Que como eu trabalhei muito tempo em lanchonete, em bar, eu sei como é que tem que fazer as coisa, a comida. Que nem, quando eu trabalhava aqui na Liberdade, então tinha, quando era tempo de frio vinha aquela turma do correio para tomar caipira e comer uma sopa. Era uma sopa de feijão com macarrão Padre Nosso, daqueles grande que o feijão até entrava dentro do macarrão. Ia uma lingüiça, então era uma cumbuca. Então, eles iam.

Mas era porque de sexta-feira o pessoal fica mesmo na continuação, né? Então, eu falava com o patrão, o que você quiser fazer e deixava na minha mão. Então, eu fazia aquela comida para a turma porque ele ficava contente porque sabia que entrava dinheiro. Porque começava na caipira. “Vamos tomar uma caipira hoje, o tempo está bom, vamos tomar uma caipira”, depois era cerveja, depois pedia uma comida, uma sopa. Mas era só mais sopa, né? E quando pedia uma porção de churrasco, que era para bolir com quem vai passando ou quem está do lado de fora, aí quando estava mal passado jogava um pouco de vinagre, aí subia aquele cheiro, chamava atenção; “oh, dá para fazer um igual aí?”. Ah, na hora Na hora, né? Pá, pum. (risos) Esse é o meu sonho, de ter um barzinho, uma lanchonete. Está jóia, seu Fernando. Mas se Deus quiser ainda vou conseguir. Sou novo, 67 anos. Tem a vida na frente ainda. Ah, graças a Deus Obrigada pela entrevista. Não querem dar só uma olhada nas fotografias?



  Sobre o EncontraBomRetiro
Fale com EncontraBomRetiro
Anuncie no EncontraBomRetiro
Cadastre sua Empresa no EncontraBomRetiro (grátis)



Termos EncontraBomRetiro | Privacidade EncontraBomRetiro


Bandeira da cidade de São Paulo